Votação estimula rivalidade em cidade na fronteira

Votação estimula rivalidade em cidade na fronteira

Em Berwick-upon-Tweed, ao sul de Edimburgo, plebiscito provocaentusiasmo e preocupação, mas não deixa ninguém indiferente

ANDREI NETTO, ENVIADO ESPECIAL, BERWICK-UPON-TWEED, , GRÃ-BRETANHA, O Estado de S.Paulo

18 de setembro de 2014 | 02h00

Na Idade Média, uma façanha da engenharia, o Muro de Adriano, demarcou a fronteira entre a Inglaterra, não raro o invasor, e a Escócia, o bastião independentista do norte da Grã-Bretanha. Hoje, uma mera placa de boas-vindas à beira de uma estrada que atravessa a ilha de norte a sul indica aos viajantes que o território de um país foi deixado para trás e o de outro acaba de começar.

Em Berwick-upon-Tweed, cidade no extremo leste da linha de fronteira, além do muro e da placa, o referendo já divide os dois povos. Berwick é a cidade mais ao norte da Inglaterra, um balneário entre a foz do Rio Tweed e o Mar do Norte, a uma hora e meia ao sudeste de Edimburgo, capital da Escócia e a 4 quilômetros ao sul da linha da fronteira com a Escócia. Sua região, a Northumbrie, foi ao longo de séculos objeto de disputas políticas e guerras entre ingleses e escoceses, até a vitória definitiva dos povos do sul em 1482.

Hoje, a cidade de 11,6 mil habitantes é de alguma forma um epicentro do novo sismo na Grã-Bretanha. Para muitos moradores, a região - como toda a linha da fronteira - será a primeira e mais prejudicada pela eventual separação. Isso porque, com duas moedas diferentes, a economia seria seccionada entre o sul, inglês, e o norte, escocês, cada qual com sua divisa. "Para quem vive e trabalha na fronteira, o impacto econômico começa imediatamente", reclama o comerciante inglês Paul Goodwin, 40 anos, dono de um pub e hotel, The First & the Last (O Primeiro e o Último), na entrada de Berwick, mas ainda em território escocês. "Tenho muitos clientes que vêm da Inglaterra. Eles terão de trocar dinheiro para vir ao meu bar? As equipes de rúgbi que sempre param aqui voltarão a parar sabendo que terão de ter outra moeda na carteira?"

O comerciante ostenta bandeiras dos dois países na entrada de seu estabelecimento e seu discurso deixa claro que é a favor da união. Apesar disso, não revela seu voto. "Tive de proibir discussões sobre o referendo no meu estabelecimento, porque as pessoas estavam brigando pelo 'sim' ou pelo 'não'", diz.

Morador de Berwick, outro comerciante inglês, Pete McCreeth, evoca a origem escocesa para pregar o unionismo. "Vamos ter problemas muito peculiares por aqui se der 'Yes' no plebiscito", acredita. "Após 307 anos, mudar dessa forma? Para quê?" McCreeth frisa duas razões para defender a união: o custo em dinheiro público da separação - que segundo ele será paga pelos ingleses - e a maior fragilidade na defesa do país. "Não teremos mais comando integrado na Ilha da Grã-Bretanha."

A retirada dos submarinos nucleares ingleses das águas escocesas é, por outro lado, o maior motivo pelo qual o escocês James Mclaughlin, um aposentado de convicções socialistas, quer a separação. "Voto 'sim' porque quero meu país livre de bombas nucleares. Minha razão é a paz", argumenta. "Creio que ficaremos até mais seguros com a independência e até no plano econômico. Sou aposentado e minha mulher o será em breve, e eu não confio nem um pouco em Westminster para garantir nossas aposentadorias."

Outra razão evocada pelos separatistas com frequência é o suposto sentimento de menosprezo que os ingleses teriam em relação aos vizinhos. Muitos evocam com mágoa um velho ditado inglês: a de que os escoceses seriam "too wee, too poor, too stupid" - "pequenos demais, pobres demais, estúpidos demais" - para governar a si mesmos.

Richard Schrantz, inglês de 65 anos, aposentado, mora no território escocês, casou-se com uma escocesa e hoje é entusiasta da separação. "Os políticos costumam falar sobre como somos uma grande sociedade unida. Isso é bobagem", diz. "Esta é uma oportunidade para restabelecer a democracia na Grã-Bretanha."

O caso de Schrantz, um inglês pró-secessão, não é incomum. É o que garante a ex-enfermeira Audrey Schoewelder, de 55 anos. Hoje comerciante, Audrey, ex-eleitora do "não" convertida ao "sim", conhece pelo nome todos os que passam pela ponte de acesso a East Lothian, cidade escocesa de fronteira famosa por ser o berço da bandeira azul e branca. "Tenho inúmeros clientes ingleses de Yorkshire, Lincolnshire e Northumberland que gostariam que seu pedaço da Inglaterra decretasse independência conosco", afirma.

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