Votação na Argentina tem violência e denúncias

Candidato ao governo de Tucumán, onde 40 urnas foram queimadas e polícia reprimiu protestos, quer nova eleição

Rodrigo Cavalheiro, O Estado de S.Paulo

26 de agosto de 2015 | 02h03

BUENOS AIRES - A violência e um impasse numa votação regional para o governo de Tucumán, a menor província do país, no norte da Argentina, alteraram o foco da campanha presidencial. Milhares de opositores locais ao kirchnerismo exigiram ontem à noite transparência no sistema eleitoral. Foi uma reação aos indícios de fraude e à queima de 42 urnas no domingo, bem como à repressão policial a um protesto na noite de segunda-feira.

O candidato que perdeu a eleição segundo a apuração parcial (81% dos votos) pediu que se repita a votação. José Cano, apoiado pelos presidenciáveis opositores Mauricio Macri, prefeito de Buenos Aires, e o ex-kirchnerista Sergio Massa, tinha 40% dos votos. Juan Manzur, ex-ministro da Saúde de Cristina Kirchner, tinha 54%. "Como vamos reconhecer (a vitória de Manzur) se os resultados das atas não coincidem com o da Justiça Eleitoral?", questionou Cano, que garantia ter registro de adulterações em 200 atas de votação.

É improvável que ele alcance seu objetivo de repetir a votação. Segundo Julia Pomares, diretora do Centro de Implementação de Políticas Públicas para Equidade e o Crescimento, a lei permite que apenas os eleitores que tiveram suas cédulas queimadas participem de uma nova votação, disse ao Estado. Esses votos representam 0,8% do total da província.

Pela ampla diferença, o candidato governista à presidência, Daniel Scioli, pressionou seus rivais a admitir o resultado na região. "Espero que Macri tenha a grandeza reconhecer a derrota", disse. O rival conservador, seu principal oponente na disputa de 25 de outubro, negou-se a fazê-lo enquanto não se recontassem todos os votos. "Não se pode dizer que foi uma eleição normal se foram incendiadas 40 urnas", afirmou Macri.

Uma mesária da cidade de San Pablo de Tucumán, Tatiana Médici Godward, descreveu no Facebook o momento em que grupos invadiram a escola. Ela afirmou que pedras foram arremessadas contra a janela da sala. Os fiscais tentaram evitar a invasão colocando um armário contra a porta quando gritaram para que deixassem o prédio. "Quando saímos, nos tiraram a urna da mão dizendo 'isso já não serve mais'", escreveu Tatiana. Das 29 urnas da cidade, 27 foram destruídas.

Os presidenciáveis foram unânimes ao condenar a repressão policial na noite de segunda-feira. O confronto iniciou quando antikirchneristas derrubaram grades que isolavam a sede do governo no centro de San Miguel de Tucumán, capital da província. Ao se aproximar da escadaria, foram alvo de balas de borracha e bombas de gás lacrimogêneo. O movimento dispersou parte da população. Alguns reagiram atirando pedras e laranjas contra os policiais.

A repressão a grandes manifestações é incomum na Argentina desde a crise de 2001, quando se registraram 28 mortes em protestos.

 

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