REUTERS/Carlos Julio Martinez
REUTERS/Carlos Julio Martinez

Direita vence legislativa na Colômbia com discurso contra o acordo de paz

Eleitores escolheram não apenas deputados e senadores, mas também os candidatos a presidente pelas coligações de direita e esquerda; partidos conservadores prometem alterar acordo de paz firmado entre o governo e as Farc, em 2016

O Estado de S.Paulo

12 Março 2018 | 00h10

BOGOTÁ - A direita da Colômbia foi a grande vencedora da eleição legislativa no país, realizada neste domingo, 11. Com 40% dos 15 milhões de votos, os partidos conservadores somados garantiram maioria de senadores e deputados. Além de reformular o Congresso do país, a eleição serviu como um termômetro para o pleito presidencial, ao definir as duas principais coligações de direita e de esquerda.

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Os colombianos puderam votar em uma “lista interpartidária”, uma espécie de primária para escolher os candidatos a presidente das duas maiores coligações do país. Com 9,5 milhões de votos, esta foi a maior participação em uma primária da história da Colômbia. 

Na eleição legislativa, o Centro Democrático, partido do senador e ex-presidente Álvaro Uribe, teve mais votos, com 2,4 milhões. Será a principal força no Congresso. Uribe também foi o senador mais votado do país, com 850 mil votos. 

Uribe conseguiu outra vitória, ao emplacar seu apadrinhado político, o advogado Iván Duque, como candidato da principal coligação conservadora do país. Duque conseguiu 4 milhões de votos, contra 1,5 milhão de sua maior rival, Marta Lucía Ramírez, ex-ministra e duas vezes candidata a presidente, líder do movimento conservador Por uma Colômbia Honesta e Forte. Ela era apoiada pelo ex-presidente Andrés Pastrana, outro polo do conservadorismo colombiano.

Logo depois do pleito, Duque confirmou que Marta Lucía será sua vice na chapa que concorrerá na eleição. O anúncio foi uma surpresa. Setores conservadores apoiavam uma chapa que unisse os candidatos de direita, mas Uribe seria contra. 

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Analistas acreditam que a grande votação do principal candidato da esquerda, o ex-prefeito de Bogotá Gustavo Petro, influenciou a decisão. Petro, de 57 anos, da coalizão Colômbia Humana e Movimento Alternativo Indígena e Social (Mais), obteve 2,8 milhões de votos e será o principal candidato da esquerda no país. 

Ex-guerrilheiro, ele militou no M-19, grupo que deixou as armas em 1990. Tinha boa avaliação como prefeito de Bogotá, mas foi afastado por suspeitas de irregularidades no sistema de coleta de lixo. Apesar das polêmicas, foi um dos poucos líderes da esquerda a conseguir empolgar a população ao encarnar a anti-direita. “A consulta de março não é apenas uma disputa entre direita e esquerda, mas entra a minha vida política e a morte de Álvaro Uribe”, afirmou Petro em janeiro. 

Os quase 3 milhões de votos de Petro indicam que ele deve estar no segundo turno. “Petro mostrou que mesmo com algumas propostas radicais, ele agrada parte do eleitorado e pode ter uma boa votação”, afirmou ao jornal colombiano El Tiempo o cientista político Enrique Serrano. “As consultas de ontem [domingo, dia 11] se tornaram uma espécie de pré-eleição presidencial”.

Duelo com a Farc

A direita promete mudar o acordo de paz firmado em 2016 entre as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e o governo do presidente Juan Manuel Santos. O grupo guerrilheiro entregou as armas e se tornou um partido político, a Força Alternativa Revolucionária do Comum (Farc). 

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Embora dificilmente tenha condições de mudar de modo substancial o acordo de paz, a vitória de Uribe e seus potenciais aliados gera incerteza sobre a implementação do sistema de Justiça definido com a ex-guerrilha para atender centenas de milhares de vítimas da guerra. O pacto que possibilitou o fim do conflito armado permite aos ex-comandantes rebeldes exercer a política sem confessar seus crimes e compensar as vítimas.

Quem cumpre os compromissos e não retorna à luta armada pode receber penas alternativas à prisão. Esse é um dos pontos que mais incomoda Uribe e os setores que venceram o plebiscito sobre o acordo de paz, em 2016, que obrigou o governo a renegociar alguns pontos do acordo. / AFP, AP, EFE e REUTERS

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