Votação no conselho da ONU expõe isolamento iraniano

Sem apoio de antigos aliados e países-chave, como Brasil, ao Irã resta apenas a solidariedade[br]de ditaduras

Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

27 de março de 2011 | 00h00

CORRESPONDENTE/ GENEBRA

Sem o apoio do Brasil e cada vez mais isolado, o Irã constatou na semana passada que praticamente só conta com a solidariedade de ditaduras no cenário internacional. Mesmo países que tradicionalmente votavam com Teerã, como o bloco africano, parecem agora hesitar e tender para a abstenção.

O Estado participou da reunião que aprovou a criação de um relator especial para investigar violações de direitos humanos no Irã. Teerã já anunciou que não aceitará a entrada do emissário. Desde 2005, nenhum relator das Nações Unidas foi autorizado a visitar o país. Mesmo assim, a investigação da ONU será feita, usando fontes dentro do Irã, ONGs, famílias de vítimas e dissidentes no exílio.

O Irã fez pressão em todas as partes do mundo para evitar uma derrota. No entanto, viu a resolução ser aprovada por 22 votos a favor - entre eles o do Brasil -, 14 abstenções e 7 contra. Na votação, ficaram claras as diferenças entre um conjunto de países democráticos e o universo de regimes fechados.

Entre os sete votos obtidos pelo Irã, praticamente todos são de ditaduras, que temem ser os próximos alvos de investigações.

Outra constatação de observadores é que o número de abstenções foi elevado e incluiu países que tradicionalmente apoiavam o Irã. Um dos poucos aliados do regime de Mahmoud Ahmadinejad ainda é Cuba.

Para Rodolfo Reyes, embaixador de Havana na ONU, a resolução seria o início de uma campanha que levaria a uma "intervenção militar no Irã". "Temos de ter em mente o apetite imperialista do Ocidente", alertou. "Esse projeto não tem relação nenhuma com direitos humanos. É apenas um pretexto para uma política de hostilidade e uma vitória política para construir fundamentos para um eventual ataque militar", acusou Reyes. Entre os diplomatas cubanos, muitos admitiam que temem ser os próximos na mira.

Já o Paquistão acusou as Nações Unidas de "ingerência" no Irã. "A ONU deve primar pelo diálogo. Tudo isto foi uma campanha orquestrada", acusou Zamir Akram, embaixador do Paquistão.

A China atacou o projeto, alertando que a pressão "não funcionaria". "Esperamos que a comunidade internacional entenda os esforços do Irã na questão dos direitos humanos", afirmou a delegação de Pequim.

Novo tratamento. Segundo um relatório preparado pelo secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, a repressão no Irã ganhou novas dimensões nos últimos meses. Apenas este ano, 92 pessoas foram executadas no país. Em 2009, o número total foi de 388, o que colocou o Irã como o segundo maior responsável por execuções no planeta, atrás apenas da China.

Teerã, porém, insiste que a pena de morte é fundamental para manter a ordem. A ONU, contudo, alega que a sentença é usada para aniquilar dissidentes.

Diante da derrota iraniana, o governo americano comemorou. "Essa decisão marca uma mudança radical na ONU em relação ao Irã", destacou a embaixadora dos EUA nas Nações Unidas, Eileen Donahoe. "O Irã faz parte de um grupo de países integrado por Coreia do Norte e Mianmar. Agora, está recebendo o mesmo tratamento."

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