EFE
EFE

Votação revela ampla rejeição a Sarkozy 

Até eleitores de esquerda participaram de prévia da direita para derrotar ex-presidente 

Andrei Netto Correspondente / Paris, O Estado de S. Paulo

22 de novembro de 2016 | 05h00

A França continuou a sentir ontem os efeitos do terremoto político causado pela eleição prévia do Partido Republicano, realizada no domingo. Mais de 4 milhões de eleitores foram às seções da legenda e decretaram o fim da carreira política do ex-presidente Nicolas Sarkozy, que por mais de uma década liderou o partido, aproximando-o da extrema direita. 

Em seu lugar, dois ex-primeiros-ministros de perfis opostos disputarão a vaga de candidato à presidente nas eleições de abril e maio: François Fillon, liberal-conservador e admirador de Margaret Thatcher, e Alain Juppé, centrista alinhado ao gaullismo. 

Mais de 4,1 milhões de franceses, recorde histórico, participaram do primeiro turno das eleições primárias da direita e do centro, realizadas em todo o país. O resultado explodiu todos os prognósticos: Fillon, ex-premiê de Sarkozy entre 2007 e 2012, era tido como terceiro colocado nas pesquisas, mas não apenas chegou em primeiro como quase venceu no primeiro turno, obtendo 44,1% dos votos válidos. 

Em segundo ficou o favorito Juppé, ex-premiê de Jacques Chirac entre 1995 e 1997, que recebeu 28,5% dos votos. Ambos passaram ao segundo turno, superando aquele que foi, entre 2006 e 2016, o patrão da direita francesa. Sarkozy, que governou a França entre 2007 e 2012 e perdeu a reeleição para o atual presidente, o socialista François Hollande, somou 20,6%.

Ontem, o ex-chefe de Estado evitou a imprensa, mas acabou flagrado por fotógrafos buscando um dos filhos na escola, ao lado da cantora Carla Bruni. O gesto condiz com a promessa feita por ele na noite de domingo, quando afirmou que se dedicaria mais “às paixões privadas do que às paixões públicas”.

Para analistas, o dia seguinte da derrota de Sarkozy se explica por sua imensa rejeição. Segundo estudo do instituto Harris Interactive, que entrevistou 7 mil eleitores após o voto no domingo, 42% afirmaram ter comparecido às prévias “para votar contra Sarkozy”. Nada menos de 14% dos franceses que compareceram à primária da direita e do centro eram, na realidade, eleitores de esquerda que desejavam influenciar na escolha do novo líder do Republicanos. 

“Trata-se da rejeição de um homem, de um estilo, de um ex-presidente”, entende o cientista político Stéphane Rozès, professor do Instituto de Estudos Políticos (Sciences Po), de Paris. “Sarkozy não encarna mais o futuro e seu discurso de adeus de domingo selou um pouco essa realidade.”

No entanto, a passagem de Sarkozy pela política da França deixou seus traços. O homem que transformou o partido criado por Jacques Chirac, União por um Movimento Popular (UMP), em uma agremiação de direita com toques populistas, forte crítica à imigração e defesa da “identidade francesa”, será, ao que tudo indica, sucedido por outro político de linha dura. 

Fillon, até aqui tido como um apagado premiê, venceu o primeiro turno ao adotar um discurso ao mesmo tempo ultraliberal em termos econômicos, na linha da ex-premiê britânica Margaret Thatcher, e ultraconservador em temas de sociedade – ele é contra o aborto e o casamento entre pessoas do mesmo sexo, por exemplo. 

“Trata-se do fim de uma época. Os franceses não querem mais Sarkozy, mas quiseram manter um candidato de direita que cultiva os mesmos valores”, afirmou à AFP Gérald Darmanin, ex-diretor de campanha de Sarkozy.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.