Votação sobre o Irã é adiada por falta de acordo

Os 35 países-membros do Conselho de Governadores da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) não conseguiram chegar hoje a um acordo sobre o texto final de uma resolução a fim de enviar o polêmico programa nuclear do Irã ao Conselho de Segurança das Nações Unidas. As consultas foram adiadas até amanhã.Segundo diplomatas em Viena, a dificuldade para se atingir um consenso deve-se às pressões de Egito e outros países em desenvolvimento que exigiram incluir no documento um pedido para a criação de uma zona livre de armas nucleares no Oriente Médio. O pedido é uma referência indireta ao suposto poderio nuclear de Israel.Essa menção é inaceitável para os Estados Unidos, principal aliado de Israel na região, mas indispensável para uma votação favorável por parte do Egito e seus aliados. Diplomatas ocidentais disseram em Viena que Israel - país suspeito de possuir armas nucleares - "não é o tema desta reunião e desta resolução".O Irã reiterou hoje que remeter seu programa nuclear ao Conselho de Segurança significaria o fim de sua colaboração voluntária com a AIEA, e advertiu que também não poderá continuar negociando com a Rússia sobre uma solução diplomática para a disputa nuclear.Um dos negociadores nucleares do Irã disse em Viena que uma lei aprovada pelo Parlamento iraniano obriga Teerã a "suspender qualquer atividade voluntária (com a AIEA), o que torna impossível seguir a proposta russa", que prevê enriquecer urânio na Rússia dentro de uma sociedade conjunta internacional. "Se adotarem esta resolução contra a lei de nosso Parlamento, isso significa matar a proposta russa", disse o negociador, acrescentando que o texto a ser adotado "nos deixa de mãos atadas".O embaixador russo na AIEA, Grigory Berdennikov, disse à imprensa que seu Governo "não retirou a proposta", e confirmou que, por enquanto, as conversas seguem adiante. Em 16 de fevereiro deve acontecer uma nova reunião entre representantes russos e iranianos em Moscou, para analisar mais detalhes da proposta russa. A colaboração voluntária do Irã com a AIEA acontece dentro do Protocolo Adicional do Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP), que permite aos inspetores internacionais visitar quase sem aviso prévio todas as instalações nucleares. Moscou propõe que os aspectos mais sensíveis do ciclo de combustível nuclear iraniano, como o enriquecimento de urânio, sejam realizados em seu território dentro de uma sociedade internacional. Desta forma, o Irã não perderia sua autonomia no momento de produzir combustível nuclear, e a comunidade internacional poderia ter certeza de que nenhum material nuclear iraniano foi desviado para fins militares.O urânio enriquecido tem aplicações civis em usinas energéticas, mas também militares na fabricação de bombas atômicas. A resolução, apresentada ao Conselho de Governadores pela UE, envia o caso do programa nuclear iraniano ao órgão máximo da ONU, mas não ameaça com sanções.O texto - que para ser aprovado requer uma maioria simples entre os 35 países do Conselho de Governadores - expõe uma série de exigências ao Irã, como voltar a suspender seu programa de enriquecimento de urânio e ser mais transparente, como pede o diretor-geral da AIEA, Mohamed ElBaradei.O embaixador dos EUA na AIEA, Gregory Schulte, disse hoje que "uma crescente maioria está apoiando" a resolução. "Uma vez diante do Conselho de Segurança da ONU, nós prevemos um esforço gradual para exercer mais pressão sobre os líderes do Irã que permita uma solução diplomática", acrescentou Schulte.Os únicos três países que até agora declararam abertamente sua oposição à resolução são Venezuela, Cuba e Síria. A reunião de emergência do Conselho de Governadores será retomada no sábado a partir das 7h de Brasília.

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