Enrique Marcarian/REUTERS
Enrique Marcarian/REUTERS

Votando com o bolso, ‘espiões’ apoiam Scioli

Eleitores do candidato governista Daniel Scioli conseguem tirar proveito de comícios opositores

Rodrigo Cavalheiro, correspondente / Buenos Aires, O Estado de S. Paulo

12 Outubro 2015 | 05h00

Uma das maiores preocupações das campanhas de Mauricio Macri e de Sergio Massa é afirmar que os planos sociais que hoje beneficiam 28% dos lares argentinos não correm risco se eles forem eleitos. Tanto assessores quanto os próprios candidatos afirmam que os auxílios foram transformados em lei e, portanto, os beneficiários podem votar em quem quiserem. Convencem pouco.

Há duas semanas, Massa deu uma palestra sobre narcotráfico e violência em Lanús, município peronista da Grande Buenos Aires. Ressaltou suas propostas de prisão perpétua para traficantes, redução da maioridade penal para 14 anos e uso do Exército não só no combate à entrada das drogas nas fronteiras, mas também nas favelas.

Olga Machado, de 54 anos, escutou todo o discurso, feito em um centro comunitário que oferece a idosos cabeleireiro, enfermeira, aulas em que escrevem o que fizeram para manter memória e lições de dança. 

Ao final, Olga abriu caminho entre os militantes, aproximou-se e perguntou algo no ouvido do candidato. Massa arregalou os olhos e respondeu: “Não! Vamos acabar com os bandidos das ruas, isso sim.” 

Olga perguntara ao candidato se ele terminaria com o Argentina Trabalha, um programa assistencial que põe desempregados para limpar ruas por quatro horas diárias. O projeto é contestado pelo baixo controle sobre a frequência dos beneficiados. “Na minha cooperativa, são 32, mas só eu e outra trabalhamos mesmo. Não tenho culpa disso”, afirmou. Olga saiu da vizinha Avellaneda para desafiar Massa e criticar sua obsessão pelo tema segurança – a maior preocupação do eleitorado, segundo pesquisas. “Ele só fala em violência, mas isso não tem solução. Respondeu que vai manter a bolsa, mas a mim é que não engana. Voto em quem a Cristina disser”, completou a sciolista.

Por razão distinta, mas também financeira, outro governista estava em um comício opositor, na quinta-feira. Animado com a decisão de Macri, que defende um ajuste econômico imediato, de buscar votos no peronismo, com sua história ligada ao Estado protetor, Herbert Ditsch montou um estande para a venda do vinho El Justicialista (referência ao Partido Peronista). Ao Estado ele disse que seus avós, alemães, receberam permissão direta do general Juan Domingo Perón para fabricar o produto, vendido a 60 pesos (R$ 24). Com embalagem especial, a garrafa saía a 80 pesos (R$ 32). 

“Macri tenta atrair o voto peronista, por isso vim vender aqui. Ele é inteligente, mas prefiro ficar com o que tem feito esse governo. Na região de Mendoza, foram construídas duas universidades nacionais nos últimos 10 anos. Antes, qualquer um precisava vir a Buenos Aires”, afirmou. Mendoza é uma das poucas regiões em que a oposição domina tanto a capital quanto a província. 

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