Rodrigo Garrido/Reuters
Rodrigo Garrido/Reuters

Voto anti-governo faz América Latina se voltar à esquerda

Entre as causas dessa guinada esquerdista nas grandes economias latino-americanas está o fracasso de governos anteriores

Carolina Marins e Fernanda Simas, O Estado de S.Paulo

08 de janeiro de 2022 | 14h00
Atualizado 09 de janeiro de 2022 | 09h09

O ciclo eleitoral da América Latina que começou em 2020 trouxe ao poder novamente diversos partidos de esquerda. Nas semanas finais de 2021, Chile e Honduras votaram decisivamente em presidentes de esquerda para substituir os líderes da direita, estendendo uma mudança significativa de vários anos em toda a América Latina. 

Mais três eleições este ano tem candidatos da esquerda como favoritos, no Brasil, na Colômbia e na Costa Rica. Três dos quatro países que compunham a Aliança do Pacífico, que deveria ser o bloco dos países mais liberais da América Latina, estarão agora sob governos da esquerda: Chile, Peru e México. O outro membro, a Colômbia, terá eleições em maio do ano que vem, e um candidato de centro-esquerda é o favorito. Em caso de vitórias, a esquerda e centro-esquerda chegariam ao poder nas seis maiores economias da região, que se estendem de Tijuana a Tierra del Fuego.

Para analistas, um sentimento anti-governantes alimentou a insatisfação com líderes de centro-direita e direita que dominaram a região há alguns anos, aliado ao sofrimento econômico  o aumento da desigualdade. Entre as causas dessa guinada esquerdista nas grandes economias latino-americanas está o fracasso de governos anteriores. Mauricio Macri (Argentina), Enrique Peña Nieto (México) e Sebastián Piñera (Chile), todos liberais, terminaram seus governos com índices recordes de desaprovação. Iván Duque, na Colômbia, segue na mesma toada.

A esquerda prometeu uma distribuição mais equitativa da riqueza, melhores serviços públicos e maior rede de segurança social. Mas os novos líderes da região enfrentam sérias restrições econômicas e oposição legislativa que podem frear suas ambições, e eleitores inquietos que estão dispostos a punir quem não cumprir suas promessas.

Por ser um voto contra e não necessariamente de realinhamento político, o resultado acaba sendo de líderes com grandes dificuldades de governar, já que não possuem amplo apoio popular e muito menos de seus respectivos Parlamentos. 

“Na América Latina há uma identidade que se caracteriza pelos 'antis''', explica Milagros Campos, cientista política e professora da Pontifícia Universidade Católica do Peru. “No Peru foram justamente esses antis que determinaram as eleições”. Em abril de 2021, o professor de esquerda Pedro Castillo ganhou as eleições por uma margem muito pequena contra a candidata de direita Keiko Fujimori. A eleição foi marcada por uma intensa polarização, em que não era possível prever um ganhador mesmo no dia do pleito.

“As eleições no Peru não foram só polarizadas, mas mostraram um desencanto da população com as candidaturas. Faltava um mês e nenhuma candidatura chegava a 20%”, aponta Milagros Campos. No fim, o voto em Castillo não foi uma escolha por ele, até então um desconhecido, mas sim um rechaço ao fujimorismo em disputa.

O mesmo pôde ser visto no Chile, em novembro e dezembro. José Antonio Kast, um candidato de direita que defendia o legado do ditador Augusto Pinochet, venceu o primeiro turno das eleições, mas foi derrotado no segundo turno quando Gabriel Boric conseguiu engajar os chilenos em um voto anti-Kast.

No caso do Chile, não foi apenas um voto contra o candidato da direita, mas todos os conservadores se viram em dificuldade. O próprio ex-presidente Sebastian Piñera não conseguiu emplacar seu candidato e terminou seu governo com alta rejeição. Na Argentina, o ex-líder Mauricio Macri experimentou em 2020 o gosto amargo de não conquistar um segundo mandato, sendo substituído pelo esquerdista Alberto Fernández.

Essa nova virada à esquerda, porém, não quer dizer uma mudança da sociedade latino-americana, mas o resultado de uma polarização crescente, a mesma que explica a onda conservadora anterior. “Essa polarização é um fenômeno mundial”, afirma Xavier Rodríguez Franco, cientista político e estudioso da América Latina na Universidade de Salamanca.

“Nas Américas, vemos inclusive nos Estados Unidos e no Canadá. Essa polarização é um pouco sobre o esgotamento do sistema político em seu conjunto, mas também porque a sociedade está recebendo uma quantidade tão grande de informação que leva a um debate público muito empobrecido onde só há duas opções de respostas: ou é um dos meus ou está contra mim.”

O resultado é o achatamento do centro e dos discursos de terceira via. Com dificuldade de propor um discurso que não seja radical, e com uma ampla fragmentação do centro, que leva a diversas candidaturas menores, a polarização aumenta e leva a eleição de lideranças mais radicais. Mas esses governos não estão encontrando vida fácil. No México e na Argentina, os atuais governos de López Obrador e Fernandes sofreram derrotas significativas nas eleições legislativas. Com poucos meses de governo no Peru, Castillo já trocou seu gabinete diversas vezes e quase sofreu uma moção de censura.

“O que fica claro é que Castillo é um presidente sem maioria no Congresso e com pouco apoio de seu partido Peru Libre”, afirma Milagros Campos. “O partido já perdeu gente no Congresso, já se fala de uma terceira troca total de gabinete, é um governo muito instável, muitos analistas dizem que é muito difícil que termine seu período”.

No Chile, antes mesmo do segundo turno, Gabriel Boric precisou revisar seu programa de governo e buscou moderar seu discurso para convencer os setores centristas de que não seria um líder muito de esquerda, como temiam. 

“Quando chegam ao poder, o que vão fazer?”, questiona Xavier Rodríguez Franco. “O empresário de direita vai continuar existintdo, o banqueiro de direita também, e vão seguir fazendo política. A questão é o que o novo governo vai fazer quando tiver que lidar com as dificuldades de uma economia complicada, um Parlamento contrário e a opinião pública muito polarizada”.

Uma nova esquerda

Outro ponto que difere esta guinada do pêndulo daquela dos anos 2000 é a característica dessa mesma esquerda. “Essa nova esquerda dos últimos 15 anos tem incorporado novos conteúdos identitários”, explica Franco. “Com temas raciais, de gênero, e isso não é ruim, mas se abandonou os trabalhadores, os tradicionais grêmios organizados e luta para que exista uma reivindicação trabalhista que seja sustentável com os novos tempos”.

“Se converteu em um esquerda mais da selfie, a selfie-esquerda. E de alguma maneira se esqueceu desse trabalho político que muitas vezes se via nos partidos de esquerda tradicionais”, finaliza.

Franco pontua que, embora esteja com uma nova roupagem e mais pautas em suas agendas, ainda está muito presa às velhas lideranças de sempre, como Luiz Inácio Lula da Silva, Cristina Kirchner e Evo Morales. Não se consegue criar uma nova geração com carreira política. Quando há novos, como no caso de Boric e Castillo, são completos desconhecidos.

Por serem menos conhecidos e até mesmo pela constante oscilação política da região, não está claro que mudanças reais esta nova guinada esquerdista pode trazer à América Latina. Se a onda anterior trouxe mais relações regionais e distanciamento dos Estados Unidos, esta nova esquerda parece trazer expectativas de aproximação com a nova superpotência do século, a China. Mas mesmo isso não parece tão certo.

“A China com certeza tem interesse em se projetar mais na região, mas ela não é ingênua, sabe que aqui tem muita instabilidade, muita dívida e problemas financeiros, então não sabemos”, explica o cientista político. 

Além disso, sobraram diversas promessas pendentes da esquerda anterior, como renovação da matriz energética, migração e completa integração entre os países da região. “A nova esquerda tem que revisar isso com muito sentido crítico porque as novas lideranças e as velhas lideranças dessa nova onda, não parecem muito críticos do que passou, do porquê as pessoas votaram nessa pequena onda de conservadorismo da região”, alerta.

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