Beatriz Bulla / Estadão
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Voto de latinos e idosos da Flórida estão no centro da disputa

Biden tem pequena vantagem no Estado decisivo; Trump perdeu apoio entre os mais velhos com falta de respostas à pandemia

Beatriz Bulla / Enviada Especial, O Estado de S.Paulo

31 de outubro de 2020 | 14h00
Atualizado 31 de outubro de 2020 | 16h22

PINELLAS, EUA - Mesmo antes de receber aval dos médicos para voltar a viajar após o diagnóstico positivo para a covid-19, Donald Trump anunciou onde faria a primeira parada da campanha: Flórida. Desde 1996, o candidato que tem a maioria dos votos no Estado é o vencedor da eleição presidencial.

As margens de vitória são quase sempre mínimas: 1,2 ponto porcentual por Donald Trump em 2016, 0,9 a favor de Barack Obama em 2012 e os históricos 537 votos a mais para George W. Bush contra Al Gore em 2000. A disputa acirrada parece se repetir em 2020, quando todas as atenções se voltam novamente para a Flórida como possível fiel da balança.

A retomada dos comícios de Trump não foi no norte conservador do Estado nem no sul democrata. Sua parada foi na área central próxima de Orlando, em um aceno aos eleitores das cidades da I-4, a rodovia estadual de mais de 2 mil km conhecida como “a rota para a Casa Branca” pela tradicional concentração de indecisos. 

Os latinos são chave para a definição do resultado na Flórida, mas não são um bloco monolítico. Enquanto cubanos e venezuelanos concentrados no sul mostram preferência pela retórica antissocialista de Trump, os porto-riquenhos tendem a votar nos democratas. Diante das divisões e da tradicional dificuldade em fazer latinos comparecerem para votar, outro grupo se tornou central para a campanha de Joe Biden: as pessoas com mais de 65 anos.

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As pesquisas mostraram que Trump perdeu apoio entre os mais velhos durante a pandemia. Parte do grupo de risco, os idosos têm sofrido com a falta de controle da covid-19 no país. Ao minimizar o perigo do vírus, Trump chegou a dizer que a doença afetava “virtualmente ninguém”, pois os jovens reagem melhor. Na reta final da campanha, o republicano foi em busca desse eleitorado, assim como Biden.

Paraíso dos aposentados

O clima quente, os lagos e as praias da Flórida atraem os aposentados americanos. Quase 21% dos moradores do Estado são idosos, mais do que os 16,5% do país. Há cidades onde essa proporção é maior, como o condado de Pinellas, onde um em cada quatro moradores é idoso, e a comunidade chamada de Villages, onde 80% têm mais de 65 anos.

A aposentada Rosemary, de 72 anos, se mudou do Estado de Nova York para Clearwater, na região central da Flórida, há cinco anos. Ela não é uma das que pretendem abandonar Trump e exibe com orgulho o adesivo no carro em apoio ao presidente.

“Ninguém é perfeito”, diz a aposentada ao falar da resposta de Trump à pandemia. “Ele fez o que pôde”, afirma Rosemary, que não quis dizer o sobrenome. 

Clearwater é uma das cidades do condado de Pinellas, um dos quatro do Estado a virar republicano na última eleição. A região é descrita na imprensa americana como “o maior condado-pêndulo no principal Estado-pêndulo”. Nos últimos 40 anos, a maioria do condado votou no candidato vitorioso – com exceção de uma vez: em 2000, quando o voto de Pinellas foi por Al Gore. 

A região central da cidade teve acesso de carros limitado para que restaurantes ampliassem o atendimento na área externa durante a pandemia. Na tarde de uma terça-feira de outubro, as mesas dos estabelecimentos estavam lotadas de aposentados. Parte se mudou para lá em busca das praias cristalinas banhadas pelo Golfo do México.

Eleitores com mais de 65 anos ouvidos pelo Estadão dizem que não foi só a pandemia que os afastou de Trump. Sentadas em uma mesa com quatro amigas, Pat Cunningham e Margareth Griffing, as duas com 69 anos, aposentadas, endossam a lista dos eleitores de Joe Biden. As duas dizem que nem sempre votam em democratas, mas não apoiaram Trump em 2016. Neste ano, elas votarão em Biden em busca de “verdade e decência” na Casa Branca. 

Empate

Dos Estados em disputa no chamado Cinturão do Sol, a Flórida é o mais cobiçado. Faltando menos de uma semana para a eleição, Biden tinha média de 1,5 ponto de vantagem sobre Trump nas pesquisas de intenção de voto. Considerada a margem de erro, os dois estão empatados na disputa pelos 29 delegados do colégio eleitoral.

Na véspera da eleição de 2016, os idosos eram o único grupo etário em que Trump ganhava de Hillary Clinton. Nas primárias do partido republicano daquele ano, o apoio de Trump também veio dos mais velhos. Ele teve 8 pontos porcentuais a mais do que Hillary entre os idosos no país.

Agora, o presidente tem ficado atrás de Biden na preferência dos mais velhos. Pesquisa New York Times/Siena College finalizada no início de outubro apontava que Biden tinha 2 pontos de vantagem entre os mais velhos na Flórida. 

Augustin Gonzáles se encaixa nos dois grupos que estão em disputa no Estado: é latino e idoso. Quando Trump foi diagnosticado com covid-19, Gonzáles orou pela saúde do presidente, apesar de não gostar dele. O porto-riquenho de 72 anos serviu no Exército americano e é registrado como eleitor republicano, mas votará em Biden. “Ele (Trump) não fez coisas ruins, mas não gosto do jeito que ele trata as minorias”, diz.

Em um artigo publicado pelo site da emissora NBC, o estrategista republicano e autor de livro sobre o partido Evan Siefried argumenta que a tendência de perda do eleitorado idosos começou a ser notada nas eleições legislativas de 2018 e ganhou força agora. 

Se depender de Ted Harcovitz, de 60 anos, no entanto, o presidente será reeleito. Ele critica a imigração, o aborto, os protestos antirracismo, defende a hidroxicloroquina e vitaminas como tratamento para covid-19 e acredita que o coronavírus gerou o maior número de mortes nos EUA porque o país recebe mais estrangeiros. “Países mais prósperos como os EUA recebem mais voos. Foi isso o que aconteceu aqui”, diz. 

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