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Voto de protesto

A resposta dos eleitores a suas insatisfações acaba levando-os a outros tipos de dilemas

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

07 Maio 2017 | 05h00

Pela primeira vez na história contemporânea, a França chega a um segundo turno presidencial sem a presença de seus partidos tradicionais, seja à esquerda ou à direita. A tendência observada na Europa de se substituir partidos por movimentos – e, nas Américas, por pessoas sem passado político – se confirma com a disputa entre o ex-ministro da Economia Emmanuel Macron, que criou o movimento En Marche! depois de sair do governo, no ano passado, e a líder da Frente Nacional, Marine Le Pen.

As razões que excluíram desse segundo turno as duas principais legendas, o Partido Socialista e o Republicanos, são parecidas com as que têm golpeado os partidos tradicionais nas democracias ocidentais. No caso do impopular governo socialista de François Hollande, os franceses exprimiram sua insatisfação com os impostos altos e a insegurança causada pelo terrorismo – as duas queixas que mais ouvi na última semana na França –, conferindo apenas 6% ao seu candidato, Benoît Hamon, que ficou em quinto lugar.

Já François Fillon, do Republicanos, perdeu o favoritismo que tinha no início da corrida presidencial e ficou em terceiro lugar, com 20%, por causa de um escândalo envolvendo o pagamento irregular de salários para sua mulher e dois de seus filhos, em seu gabinete no Senado. Portanto, dois problemas familiares para os brasileiros: uma gestão insatisfatória, no caso de Hollande, e abuso de poder, no de Fillon.

A resposta que os eleitores têm dado a essas insatisfações, o voto de protesto depositado em candidatos que se colocam de alguma maneira de fora do jogo convencional da política, acaba conduzindo-os a outra categoria de dilemas.

Assim como aconteceu com a eleição de Donald Trump, agora também uma das palavras que mais ouvi dos eleitores, tanto em relação a Macron quanto a Le Pen, foi “essa pessoa me causa medo”. Hillary Clinton também causava medo em muitos americanos, mas era um medo do conhecido: a personalidade manipuladora, que converteu ela e o marido em espécie de “donos” do Partido Democrata, entre outras coisas. No caso dos três primeiros, trata-se do mergulho no desconhecido, no imprevisível.

Há um forte traço de impulsividade nas figuras de Trump, Macron e Le Pen. Por trás desse aspecto psicológico, há uma questão de ordem política e institucional: a ênfase na liderança pessoal e no contato direto com o eleitorado, em detrimento de programas e linhas partidárias, introduz uma extraordinária instabilidade no sistema. Não estou aqui fazendo uma defesa “reacionária” da estabilidade – muitas vezes a instabilidade, seja de um impeachment ou de uma mudança de rumo nas políticas, é necessária. Só estou fazendo uma constatação: o preço dessa substituição do político e do partido convencionais pelo líder personalista – quando não populista – é a dificuldade de prever o curso dos acontecimentos e das diretrizes.

Inerente a essa mudança é também a enorme importância que o marketing político adquire. É evidente que tanto o magnetismo do líder quanto as estratégias de marketing sempre tiveram papel na política e nas eleições. Pense em Getúlio Vargas, Jânio Quadros e tantos outros. O que estamos vendo é essas forças ficarem praticamente sozinhas, sem as contenções que o sistema partidário antes impunha.

Partidos, assim como times de futebol e igrejas, fazem parte da cultura e da identidade. Eles poderiam não ser um ponto de chegada, mas eram um ponto de partida, balizas de um debate. Sua dissolução aumenta a liberdade, mas também os riscos. Isso é visível em democracias maduras, como a americana e a francesa. Aqui na França, como nos EUA, encontrei muitos eleitores que se sentem perdidos, paralisados pela natureza escorregadia do debate. 

Que dizer, então, do Brasil, com sua profusão de partidos que nada significam, combinada com a desmoralização, pelas revelações da Lava Jato, daqueles poucos que guardavam alguma identidade ideológica?

 

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