'Voto mostra rejeição à linha de Khamenei'

Para analista iraniano, eleição de Rohani é uma brecha para mudar a economia e pressionar líder supremo a negociar

Entrevista com

ANDREI NETTO, CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

17 de junho de 2013 | 02h07

A eleição do moderado Hassan Rohani como novo presidente do Irã dá à população uma nova esperança de superar a crise econômica que abala o país, mas está longe de representar uma virada na política externa de Teerã. A opinião é do cientista político iraniano Mohammad-Reza Djalili, segundo o qual o resultado permite ao Irã virar a página de Mahmoud Ahmadinejad, mas não a da hegemonia do líder supremo da revolução, Ali Khamenei. Os principais trechos da entrevista:

No primeiro discurso, Rohani afirmou que o resultado era "a vitória do progresso sobre o extremismo". O que o senhor pensa do presidente eleito?

Rohani é o menos ruim desses candidatos. Como você sabe, os iranianos não têm a total liberdade de escolha, porque a lista de candidatos lhes é imposta pelo líder supremo. Rohani é o homem que apareceu nas eleições como o moderado, embora não seja um reformador, mas um conservador. Ainda assim, os que votaram nele são os que participaram do Movimento Verde quatro anos atrás.

Qual é o recado da eleição de Rohani?

É uma referência direta a Mahmoud Ahmadinejad e em especial à situação econômica, que se deteriorou nos últimos quatro anos. O Irã está em recessão, o que não acontecia havia muito tempo. O problema é que a margem de manobra de Rohani é limitada. O mestre do país continua sendo o guia supremo, Ali Khamenei. Diria que há um pouco de esperança porque a situação é tão deteriorada, no plano interior e exterior, que mesmo Khamenei pode se mostrar mais flexível para se manter no poder.

Para o povo iraniano, que se rebelou contra Ahmadinejad há quatro anos, o que a eleição de Rohani representa?

Em primeiro lugar, a eleição pode mudar o Irã no plano econômico. O país está entrando em um ciclo de empobrecimento por má gestão dos recursos nos últimos 34 anos, em especial nos últimos oito. É o primeiro país petrolífero que está empobrecendo. O desemprego é de 50% e a inflação sobe. Por esses motivos, a economia continua a primeira preocupação. Mas os iranianos ainda sonham com liberdades individuais, democracia, eleições livres, internet livre, etc. Isso vai levar muito mais tempo. Os conservadores tiveram 49% dos votos e todas as grandes instituições do país estão nas suas mãos. Eles imporão obstáculos ao progresso político, intelectual e artístico. Os iranianos não têm muitos meios, por isso aproveitam as brechas que aparecem no sistema. Rohani é essa brecha.

Como a eleição de um moderado deve ser compreendida por Khamenei?

A eleição é uma mensagem clara ao guia supremo. Ele apoiou Ahmadinejad nos últimos oito anos. Ahmadinejad era um presidente horrível, mas não era o único culpado. De uma certa maneira, o voto é uma rejeição à linha política de Khamenei. Espero que ele tenha entendido o recado e que mostre mais moderação e flexibilidade.

O que esperar em questões acompanhadas de perto pelo Ocidente, como o programa nuclear do país e a ligação com a Síria?

Se as sanções forem aliviadas, é possível que os iranianos tenham um novo discurso nas próximas discussões com o Ocidente sobre seu programa nuclear. Se os EUA e a comunidade internacional mostrarem mais respeito, podemos nos encontrar em um novo ponto na crise nuclear com o Irã. No que diz respeito à Síria, ao Iraque e ao Hezbollah, essas políticas exteriores não dizem respeito ao presidente, nem ao Ministério das Relações Exteriores, mas ao líder supremo. E eu não creio que ele esteja disposto a mudar sua política.

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