Voto pró-Brexit significará fim da carreira de Cameron

Para especialista, até mesmo uma vitória apertada pela permanência causará danos políticos ao premiê

Andrei Netto, Correspondente / PARIS, O Estado de S. Paulo

20 Junho 2016 | 05h00

Principal responsável pela realização do referendo sobre a saída ou não do Reino Unido da União Europeia, o primeiro-ministro britânico, David Cameron, deve ter os dias contados em caso de vitória da campanha do “sim”.

Para Jonathan Tonge, cientista político da Universidade de Liverpool, o líder do Partido Conservador não apenas terá de renunciar ao cargo, cedendo lugar ao ex-prefeito de Londres e seu rival interno Boris Johnson, como ainda verá o fim de sua carreira política.

Cameron foi o mentor do referendo marcado para quinta-feira. Para atender à ala mais avessa ao bloco (eurocética) de seu próprio partido, o Tory, Cameron prometeu em seu primeiro mandato que realizaria uma consulta popular sobre o tema. Na época, a maioria dos britânicos era a favor da manutenção no bloco, mas, desde então, e em especial após a crise migratória de 2015, grupos nacionalistas e de extrema direita conseguiram reverter o resultado. 

Até a quinta-feira, quando a deputada trabalhista Jo Cox foi assassinada por um militante ultranacionalista e neonazista, pesquisas de opinião indicavam a vitória do “Brexit” (saída) por 52% a 48%. “Cameron é um rei nu. Foi um grande erro político de sua parte prometer a realização do referendo”, disse Tonge. 

Líder da campanha pelo “sim”, Cameron enfrenta uma contradição: durante anos ele próprio atacou Bruxelas por sua suposta ineficiência, e agora adverte que o prejuízo econômico será irreparável se a ilha optar pelo rompimento. “Se votarmos pelo “sim”, Cameron terá de renunciar, pois terá acabado como líder político.

O poder vai sofrer crash em Londres e a libra esterlina vai passar por um enorme período de instabilidade”, prevê o acadêmico. Para Tonge, mesmo uma vitória apertada em favor da permanência do país na UE poderá representar um dano irreparável à credibilidade do primeiro-ministro. “Se for um voto pelo ‘não’, Cameron poderá permanecer no poder, mas terá vivido sua última grande aposta.”

Não é a primeira vez que o primeiro-ministro conservador coloca o país em um impasse. Em 18 de setembro de 2014, um referendo sobre a permanência da Escócia no Reino Unido foi realizado com sua autorização. O resultado foi uma vitória apertada de 55,4% em favor da permanência e 44,6 %, pela independência.

Não bastassem todos os problemas que serão causados ao país pelo eventual rompimento com a União Europeia, Londres provavelmente terá de enfrentar um novo levante da opinião pública na Escócia. Principal instituição política de um país francamente pró-integração com a Europa, o Parlamento da Escócia poderia convocar um novo referendo para votar pela independência do país em relação à Grã-Bretanha, solicitando a seguir seu ingresso na UE.

Para Tonge, a situação política é tão delicada para Cameron e para Londres que até mesmo a possível convocação de um segundo referendo sobre o Brexit, para confirmar o resultado, não pode ser descartada.

 

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