Votos contra a Europa

Os institutos de pesquisa acertaram: no primeiro turno das eleições, o socialista François Hollande, com 28,63% dos votos, ultrapassou Nicolas Sarkozy, que obteve 27,2%. Mas esses mesmos institutos erraram, e muito, quanto aos demais: o candidato da extrema esquerda, o mirabolante Jean-Luc Mélenchon, do qual se esperava maravilhas, contentou-se com 11,1%.

GILLES LAPOUGE, O Estado de S.Paulo

24 de abril de 2012 | 03h04

Eis o grande erro das pesquisas: a candidata da Frente Nacional, de extrema direita, foi a surpresa. Com 17,9% dos votos ela foi no encalço de Sarkozy. A filha do agitador neofascista Jean-Marie Le Pen, hoje aposentado, arrasou. Claro que ela não vai disputar o segundo turno. Mas se instala, com armas, bagagens, bandeiras, zombaria e talento, no centro da paisagem.

Que fará Marine do seu capital de votos próximo de 20%? Se instruir seus eleitores a votar em Sarkozy, poderá salvá-lo da humilhação. Mas não é certo que os eleitores da Frente Nacional obedecerão. E, depois, Marine não está muito disposta a socorrer Sarkozy. Ela pretende usar seus 20% de votos numa tarefa mais ambiciosa: tornar-se a principal força de direita, batendo o partido de Sarkozy, a UMP, que corre o risco de se decompor.

Como explicar essa façanha de Marine? Em primeiro lugar, o talento. Como Mélenchon, e diante de rivais medíocres (Sarkozy e Hollande), Marine foi deslumbrante. Essa poderosa e bela mulher loira, quando subia ao palanque, em campanha, dava início a um grande espetáculo de teatro, em termos de eloquência e gestual. E, depois, uma fina estratégia política.

Até agora a Frente Nacional, partido criado pelo velho Le Pen, que nunca escondeu sua admiração pelos fascistas e mesmo os nazistas, era um partido de empesteados orgulhosos de ter a peste. O chefe, Jean-Marie, obcecadamente contra judeus e árabes, sempre com um insulto na boca, não se encaixava no cenário político. Ele vituperava, maldizia, com brio. E gabava-se de ser "intratável".

Quando herdou o partido do seu pai, Marine realizou uma extraordinária reformulação. Mais bela, mais inteligente e mais carinhosa do que o pai, ela procurou reabilitar a imagem da Frente Nacional. Conservar os elementos fundamentais, mas os envolver até os enterrar, em outros termos: a pobreza, a injustiça, os malefícios dos bancos, o egoísmo dos ricos, etc. E declarou-se "republicana", o que foi uma surpresa!

Claro que de vez em quando ela acrescentava uma pequena dose de xenofobia, anti-islamismo, de maneira que suas tropas respirassem, mesmo assim, uma baforada "dos bons e velhos tempos". Mas, no geral, ela atingiu seu objetivo. A Frente Nacional, em vez de se agitar no limbo, está no momento no centro do jogo. Prova disso é que, com 20% dos votos, ela conseguiu superar a melhor marca obtida pelo pai.

Recrutamento. A Frente Nacional, em vez de arregimentar apenas os antigos adeptos da doutrina de Charles Maurras - os nostálgicos do marechal Pétain e de Hitler, europeus exasperados com a imigração e colonialistas furiosos -, ampliou sua clientela. A luta contra a pobreza, a bulimia dos ricos, das elites, dos funcionários de Bruxelas, tudo isso fez convergir para a Frente Nacional gente que outrora teria votado nos comunistas. Entre os novos temas explorados por Marine estão, claro, a União Europeia e o euro, esses "monstros frios" que dirigem, de Bruxelas, com um bando de funcionários apátridas e sonâmbulos, os destinos do gentil "povo da França". Se pensarmos que Marine, porta-voz dos antieuropeus, conseguiu quase 20% dos votos, podemos compreender que líderes nas capitais e em Bruxelas suem frio. Sobretudo se adicionarmos os 11% conseguidos por Mélenchon, campeão da extrema esquerda, violentamente antieuropeu.

A rejeição das instituições europeias não se limita a Marine e Mélenchon. O socialista Hollande, se eleito (e tem chances), exigirá uma reformulação dos últimos tratados europeus (inspirados pela alemã Angela Merkel) que só tratam de rigor fiscal, sem buscar métodos de retomada do crescimento. Mesmo Sarkozy, que durante um longo tempo ficou grudado em Merkel como uma goma de mascar, percebe que os ventos estão mudando de direção e passou a criticar a União Europeia e o euro.

Assim, essas eleições no "crepúsculo programado" de Sarkozy serão importantes por duas razões, pelo menos: a ascensão gloriosa da filha de Jean-Marie Le Pen e a ofensiva generalizada contra a "supranacionalidade", cuja capital é Bruxelas. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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