Votos nulos e brancos inundam urnas na Argentina

O governo do presidente Fernando de la Rúa e toda a classe política argentina receberam hoje um duro recado que expressou a ira e desconfiança dos argentinos. Segundo as sondagens de boca-de-urna das eleições parlamentares nos principais distritos eleitorais do país - a província de Buenos Aires e a cidade de Buenos Aires - os votos em branco e nulos obtiveram proporções nunca antes vistas. De acordo com as pesquisas de boca-de-urna, na cidade de Buenos Aires, os votos em branco e nulos passaram de 4% na eleição anterior para 42% neste domingo. Desta forma, teriam ultrapassado o candidato ao Senado da coalizão de governo, Aliança UCR-Frepaso, Rodolfo Terragno, que ficou em primeiro lugar com somente 20% dos votos. Na província de Buenos Aires, os votos em branco e nulos teriam ultrapassado 20%. Mas o vencedor foi o Partido Justicialista (peronista), da oposição, que elegeu para o Senado o ex-vice-presidente da República e ex-governador, Eduardo Duhalde. Com 43% dos votos, Duhalde inflingiu um duro golpe ao segundo colocado, o ex-presidente Raúl Alfonsín, candidato pela Aliança UCR-Frepaso, que obteve 18%. Apesar da obrigatoriedade do voto, segundo os primeiros dados divulgados pela Justiça Eleitoral, a abstenção teria alcançado até 40% em algumas províncias. Uma das pesquisas de boca de urna indicava que, entre as variedades de voto de protesto, 20% dos argentinos teriam votado em heróis da independência, como o general San Martín, e até em personagens de desenhos animados. Estas eleições confirmaram que a popularidade do presidente De la Rúa está no pior momento desde sua posse, há quase dois anos. Enquanto em dezembro de 1999 tinha 75% de aprovação pública, hoje não passa dos 20%. Para a analista Graciela Römer, esta proporção de "votos-raiva", como estão sendo denominados, foi causada pela decepção e a irritação dos argentinos com os políticos, tanto do governo como da oposição. Além disso, teriam pesado contra a recessão, que dura mais de três anos, os quase 17% de desemprego e a errática política econômica do ministro Domingo Cavallo. Prevendo uma grande proporção de votos para a oposição e de "votos-raiva", pouco depois de votar, De la Rúa afirmou que "nestes momentos difíceis para o país é preciso que o governo escute com humildade a mensagem das urnas". Mas De la Rúa escapará por alguns dias do clima de derrota do governo para viajar nesta segunda-feira à noite à Espanha. Em seu retorno anunciaria mudanças ministeriais. De todo o gabinete, somente estariam garantidos em seus postos os ministros da Economia, Domingo Cavallo, o chanceler Adalberto Rodríguez Giavarini e o chefe do gabinete de ministros, Chrystian Colombo. Antes de partir, De la Rúa anunciaria parte do novo pacote de medidas econômicas para reativar a economia do país, abalada por três anos de recessão. Exatamente dois anos depois de seu esmagador triunfo sobre o peronismo, o presidente Fernando de la Rúa e a coalizão de governo Aliança UCR-Frepaso sentiram neste domingo o amargo sabor da derrota, inflingida por aqueles que venceram em 1999. As primeiras bocas-de-urna da primeira eleição argentina do século 21 indicavam que o peronismo havia vencido nas principais províncias. Desta forma, este partido recupera-se das derrotas das duas últimas eleições e começa a preparar-se para obter o poder nas eleições presidenciais de 2003. Com este novo mapa do poder, que além do aumento da presença do peronismo no Congresso Nacional inclui o surgimento de novas forças na arena política - como o centro-esquerdista ARI - o governo De la Rúa terá que sobreviver até o fim de seu mandato, em dezembro de 2003. A técnica para atravessar a segunda metade de seu mandato será o de aprimorar as negociações com a oposição peronista. Desde que tomou posse, De la Rúa - que nunca teve maioria parlamentar - precisou negociar com o peronismo, além de tentar controlar as amplas alas de rebeldes e dissidentes internos do próprio governo. A mesma situação continuará daqui para a frente, mas em uma versão mais dura, que exigirá de De la Rúa maior capacidade de consenso. Os candidatos que venceram neste domingo foram os que utilizaram o ministro da Economia, Domingo Cavallo, como saco de pancadas. A crítica ao modelo econômico foi uma constante em todo o leque político, embora sem discutir a conversibilidade econômica. Esse foi o discurso do candidato peronista ao senado na província de Buenos Aires, Eduardo Duhalde. Buenos Aires é a província fundamental no cenário político argentino. É a mais importante do país, já que ali se elegeram mais de 25% dos novos deputados do Congresso Nacional. Na cidade de Buenos Aires, o ex-chefe do gabinete de ministros Rodolfo Terragno, considerado o principal intelectual da UCR, realizou sua campanha criticando Cavallo. Mas, ao contrário do que havia feito até agora, neste domingo evitou polemizar com o ministro. Depois de votar, Cavallo disse que os próximos dias e meses serão fundamentais para "o futuro da Argentina".

Agencia Estado,

14 Outubro 2001 | 20h26

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.