Vou contar os dias

Quando as pessoas se dão conta de que tudo pode ser enumerado e de que irão morrer?

James Collins*, The New York Times/O Estado de S.Paulo

24 de março de 2014 | 02h08

Quando chegam aos 50 anos, as pessoas em geral já experimentaram um momento na vida em que, pela primeira vez, se defrontam realmente com a própria mortalidade, um momento em que, de repente se compenetram de que todos morreremos, algum dia - como quando dizemos, por exemplo: "por que você não morre?". Essa revelação pode ocorrer em várias circunstâncias. Para uma pessoa, pode ser em razão da morte de um amigo, um contemporâneo; para outra, ao ler Quatro Quartetos, de T. S. Eliot.

"Nascemos com os mortos: Vê, eles retornam, e nos levam com eles. O momento da rosa e o momento do teixo são de igual duração. (Little Gidding, ll 230-3)"

No meu caso, o momento em que tive a terrível certeza da minha morte chegou não como o momento da rosa ou o momento do teixo, mas como o da caixa de grampos.

Estava mexendo numa gaveta da escrivaninha à procura de um envelope de selos e, por alguma razão, parei para ler o que estava escrito numa caixa de grampos que vi lá: "Grampos padrão Swingline / para todo tipo de grampeadores / 5 mil grampos".

Cinco mil grampos. Cinco mil? Me pareceu uma quantidade enorme. Peguei a caixa e me dei conta de que era muito pesada. Olhando em seu interior, vi que já havia usado cerca de dois terços de uma fileira. Como a caixa trazia também a informação muito útil de que cada fileira continha 210 grampos, calculei que eu tinha usado cerca de 150 (os leitores dotados de tino matemático observarão que 5 mil não é divisível por 210, mas deixemos isto de lado). Então: 5 mil menos 150, restam 4.850. Quatro mil, oitocentos e cinquenta? Também este número sugeria um monte de grampos.

Com um estranho pressentimento, comecei a fazer algumas contas. Supondo que eu tivesse comprado a caixa dez anos antes, num cálculo conservador, talvez eu tivesse usado em média 15 grampos por ano, ou um grampo e um quarto por mês.

Então me perguntei quanto tempo levaria, nessa média, para usar os restantes 4.850 grampos. Procurei uma calculadora, mas estas coisas jamais voltam para o mesmo lugar quando a gente as empresta a alguém, então usei a do computador. Resposta: 323 anos.

Foi aí que me dei conta de que iria morrer: eu tinha mais grampos do que todos os que poderia usar ao longo da minha vida, ou várias vidas.

Na realidade, o resultado foi mais desanimador ainda, porque em outra gaveta encontrei mais duas caixas de 5 mil grampos quase cheias, uma delas com data anterior a 1986, porque a caixa indicava que a empresa Bostitch - anteriormente Boston Wire Stitcher Company - pertencia à Textron, e 1986 foi o ano em que a Textron a vendeu à Stanley.

Não há nada que nos defronte com a mortalidade como a percepção de que viveremos apenas o tempo suficiente para usar 3,2% dos objetos que utilizamos em nosso escritório (as caixas mais antigas continham cerca de 4,5 mil grampos, o que perfazia um total de 13.850; se eu vivesse 30 anos, e usasse 15 grampos por ano, isto daria 450, ou 3,2%.). Não consigo deixar de pensar nas outras coisas que possuo que durarão bem mais do que eu: os vidros de molhos e picles no fundo da geladeira; pacotes de papel para impressora; graxa de sapatos; livros.

Livros. Durante toda a minha vida comprei livros despreocupadamente, sem jamais pensar na possibilidade de viver o suficiente para lê-los.

Mas será que irei conseguir? Não sou absolutamente um colecionador, mas sou um acumulador de livros. Contando as prateleiras e calculando uma média de livros em cada uma, imagino que minhas estantes contenham cerca de 4.250 livros.

Tenho ainda 100 livros no meu Kindle, e pelo menos uns duzentos em caixas que estão no subsolo. Vamos dizer que sejam 5 mil livros - de novo este número - ao todo.

Quantos dos meus livros eu li? É uma questão delicada. Acredito que, pelo simples fato de possuir um livro, mereço cerca de 90% do crédito que mereceria se também o lesse, mas nem todo mundo olha as coisas deste ponto de vista. Fico um tanto chocado ao descobrir que numa prateleira, li, de acordo com os padrões convencionais, apenas um terço dos livros.

Com isso, tenho cerca de 3,3 mil livros que não li. Vocês e eu sabemos que eu não leio um livro por semana, leio dois por mês e dou uma olhadinha em alguns outros. Se eu lesse dois livros por mês, levaria 137 anos para ler os que ainda sequer peguei na mão. Portanto, não viverei mais 137 anos e sequer terei tempo suficiente para ler os livros que tenho. A morte intervirá (graças a Deus) muito antes de eu chegar ao último volume (dos doze originais) de A Dance to the Music of Time.

Podemos considerar a questão de outro ponto de vista igualmente pessimista. Se eu morrer daqui a 30 anos, com 85, e se eu ler dois livros por mês, ainda restarão 720 livros que deixei de ler ao longo da vida. Esse número parece tão pequeno. Na minha vida há pouquíssimas brechas de tempo para chegar perto do número de obras que pretendo ler. O que deveria fazer então ao entrar numa livraria? Comprar somente livros de humor porque eles são sempre fáceis de ler?

Fico imaginando que, se começasse a grampear pedaços de papel juntos, até envelopes, ao acaso, para usar todos os meus clipes, não conseguiria estender a minha vida por centenas de anos. Do mesmo modo, se eu lesse um livro por dia, e, em vez de reler Franny e Zooey pela 50.ª vez, lesse os livros que tenho e nunca li, como O Terror e o Consentimento, de Philip Bobbitt e Morte de Virgílio, de Hermann Broch, talvez pudesse também estender bastante a minha vida, embora, efetivamente, não no sentido cronológico banal.

Grampos, livros, picles. Em que momento as pessoas se dão conta de que irão morrer? Quando elas se dão conta de que, no resto de sua vida, tudo pode ser enumerado.

*James Collins escreveu o romance 'Beginner's Greek'.

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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