'Voz do povo vai se impor' nas eleições legislativas, diz Chávez

Ausente do pleito de 2005, bloco oposicionista tenta neste domingo quebrar maioria governista na Assembleia.

Claudia Jardim, BBC

27 de setembro de 2010 | 01h21

O presidente da Venezuela Hugo Chávez disse, neste domingo, que a vontade da população venezuelana "vai se impor" nas eleições legislativas que resultarão na recomposição do Parlamento, governado durante cinco anos por maioria governista.

"O povo está falando e, mais uma vez, vai se impor a voz do povo", afirmou Chávez, minutos depois de votar na escola Manuel Palácio Fajardo, no bairro periférico de 23 de Enero, um dos redutos chavistas na capital, Caracas.

Chávez disse que não iria responder baseado em "hipóteses", ao ser questionado por um jornalista sobre o que pretende fazer caso seu partido, o PSUV, não consiga a maioria qualificada no Parlamento, equivalente à 110 das 165 cadeiras em disputa.

O presidente venezuelano disse que respeitará os resultados das eleições e pediu que seus adversários façam o mesmo.

"Há 20 anos, eu vi com estes olhos quando a direita roubou os votos descaradamente da esquerda", declarou o presidente.

A base governista deverá conquistar a maioria das cadeiras do Parlamento, de acordo com pesquisas de opinião. No entanto, o chavismo corre o risco de perder a maioria qualificada, o que permitiria à oposição frear a aprovação de leis que permitam radicalizar o projeto da revolução bolivariana.

A oposição, por sua vez, luta por conquistar pelo menos 67 vagas, o que impediria que os chavistas obtivessem a maioria simples no Parlamento. Sem a maioria simples, a base governista teria que negociar a aprovação de leis orgânicas ou a nomeação de representantes das Cortes do país.

Chávez disse que seus opositores não tiveram êxito nas tentativas de "desestabilização" do país, razão pela qual, estavam participando do pleito neste domingo. "Fracassaram com a desestabilização e não ficou outra alternativa que vir atuar no marco da Constituição e das leis (...) peço a todos que respeitemos a vontade popular", afirmou.

Tranquilidade

A chuva que preocupava as autoridades e que provocou pelo menos sete mortes na cidade de Caracas deu uma trégua neste domingo. O clima das eleições, por enquanto, é de absoluta tranquilidade.

As eleições legislativas na Venezuela, nas quais mais de 17 milhões de venezuelanos deverão eleger a nova composição do Parlamento, é marcada por perspectivas desencontradas em relação as tarefas que deverão assumir os deputados que forem eleitos.

O vigilante Santiago Jesus Soto disse à BBC Brasil que as eleições desse domingo são um "termômetro", cujo resultado, definirá o futuro da reeleição de Chávez em 2012. "Acredito que seremos maioria na Assembleia Nacional e que continuaremos aprofundando o processo revolucionário", afirmou Soto minutos depois de votar no mesmo centro eleitoral onde votou Chávez.

Soto afirma que "a revolução bolivariana é o único caminho para reverter os problemas criados pelo capitalismo". Este eleitor, considera positiva a volta da oposição ao Parlamento, pois a seu ver, haverá maior "rigor e controle" na elaboração e aplicação das leis. "Necessitamos de leis que beneficiem a todos os venezuelanos, não apenas a nós, os chavistas", afirmou Soto.

Para o bioanalista José Antônio Sanchez, morador do bairro 23 de Enero, se o chavismo perder a maioria do Parlamento, a oposição trabalhará para reverter as "leis da revolução".

"Todas as conquistas trabalhistas, de participação popular, de propriedade social, todo o poder que Chávez tem dado ao povo, será suprimido", afirmou. "E depois, vão querer tirar o presidente."

No leste da cidade de Caracas, reduto da oposição ao governo, a advogada Ingrid Capriles defende justamente a reversão das leis aprovadas durante a gestão do Parlamento chavista.

"Queremos acabar com essas leis, como a lei de terras, que ataca a propriedade privada", afirmou Capriles à BBC Brasil, enquanto aguardava na fila a abertura dos centros de votação Cristo Rei, antes mesmo do amanhecer, deste domingo.

"Minha família vive da propriedade privada, temos galpões e centros comercias, não quero ver meu patrimônio ameaçado", acrescentou.

Para a empresária Maria Alejandra Martinez, a lei de imobilidade trabalhista, que proíbe a demissão sem justa causa, é um problema para seu setor.

"Os trabalhadores se sentem apoiados pelo governo e ninguém pode tocá-los", afirmou Martinez. A seu ver a aprovação de "leis chavistas" poderia ter sido evitada se a oposição não tivesse boicotado as eleições legislativas de 2005, quando decidiram não participar do pleito.

O comerciante Jesus Fabricatore concorda com Martinez."Estamos pagando pelo erro cometido em 2005", afirmou à BBC Brasil, pouco antes de votar no centro de votação Andrés Bello, no centro da cidade.

A oposição não possui representação no Parlamento venezuelano, desde 2005, quando decidiu retirar suas candidaturas na última hora e optou por não concorrer às eleições, alegando supostas irregularidades no processo eleitoral, que não foram comprovadas posteriormente. Desde então, a Assembleia Nacional é governada por maioria governista absoluta.

As urnas foram abertas as 7h30 (hora de Brasília) devem ser fechadas às 19h30 (hora de Brasília). Os resultados parciais serão conhecidos duas horas depois do fim da votação, de acordo com o Conselho Nacional Eleitoral.BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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