Vuvuzela, a estridente corneta da liberdade

Tradição dos negros sul-africanos, hoje ela também é tocada por brancos, numa afirmação da cicatrização de feridas

Roger Cohen, O Estado de S.Paulo

22 de junho de 2010 | 00h00

THE INTERNATIONAL HERALD TRIBUNE

Quando estudamos os países, temos as estatísticas e os fatores intangíveis. Inflação e desemprego pouco nos dizem a respeito do patriotismo, do otimismo e da sensação de identidade comum que fazem funcionar as sociedades ou as arruínam. No caso, falemos da África do Sul.

Passei parte de minha infância numa África do Sul que marcou minha imaginação porque combinava luz e sombra como nenhum outro lugar: uma sucessão de tardes banhadas de sol em jardins de abacateiros e jacarandás pontuadas - enquanto íamos de carro de um churrasco ao outro - por vislumbres de negros andrajosos conduzidos aos montes para dentro de furgões da polícia.

"Parece que eles não estão com seus documentos", murmurava algum parente, e a mente de uma criança nascida em Londres de pais sul-africanos esforçava-se para compreender o significado daquilo.

Gradualmente, o foco fechou-se no regime de supremacia branca, o apartheid.

Tratava-se de uma questão de negação - negar aos negros a possibilidade de uma formação, sua mobilidade, sua própria humanidade. Na mentalidade do africâner, com suas justificativas bíblicas para a opressão travestida de segregação, a maioria negra tinha como única função servir como "cortadores de lenha e carregadores de água" - quando muito.

Esta África do Sul de minha infância enxergava o mundo como "anti-MDVT" - uma sigla tola para o que era chamado de modo de vida tradicional. Entre essas "tradições" estava a inclusão do sexo inter-racial entre os crimes previstos pelo código penal. O cataclismo sempre esteve próximo. O sangrento fim de um sistema insustentável não era simples tema de conversa fiada, mas um espectro sempre presente.

E aqui estamos nós, duas décadas depois de Nelson Mandela ter saído da prisão, numa África do Sul que é anfitriã do evento esportivo mais assistido do planeta, a Copa do Mundo, e ainda por cima fazendo-o com um espírito de união que nos mostra negros e brancos enrolados em bandeiras, assoprando as estridentes cornetas de plástico conhecidas como vuvuzelas, e torcendo pelos "Bafana Bafana" - os rapazes.

A equipe é medíocre. A África do Sul deve se tornar o primeiro país anfitrião a não conseguir se classificar para a segunda fase da competição. Isto seria triste, mas, no fim, tal questão é imaterial.

Esta Copa do Mundo, em especial, é política. Trata-se da afirmação da milagrosa (ainda que incompleta) cicatrização de um país, da dignidade africana, e de um continente que merece mais do que as imagens de pobreza e doença a que estamos acostumados.

"O país está indo para o brejo" - ainda ouço comentários como este, semelhantes aos de outra época, que se manifestavam sob um verniz diferente. Lembra-se do que eu disse a respeito das estatísticas? Há muitas delas.

Estamos falando de um país onde apenas 60% das moradias dispõem de vasos sanitários, onde se estima que 6 milhões de habitantes sejam portadores do HIV, e onde o desemprego chega aos 25%. Muros altos - e 300 mil seguranças particulares - são prova da alta taxa de homicídios.

Diante de tudo isto, o que tenho a dizer é: as pessoas nutrem expectativas irreais. Querem avançar o filme da vida como se fosse um dispositivo eletrônico. Não se pode apagar os efeitos de meio século de apartheid em apenas uma geração. O "não-racialismo" - compromisso do presidente Jacob Zuma - não é uma descrição do estado em que a África do Sul se encontra, assim como não descreve a realidade dos Estados Unidos.

Ainda assim, o que vejo é a grandiosidade: um país de 49 milhões de habitantes, dos quais 38,7 milhões são negros, 4,5 milhões, brancos e os demais mestiços ou asiáticos, que se manteve unido e recusou o desmoronamento ao estilo do Zimbábue e também a implosão ao estilo congolês. Não se deve subestimar a grande conquista da África do Sul.

Estive na semana passada num estádio lotado na capital do país, Pretoria, enquanto um crescendo de vuvuzelas celebrava os Bafana e uma mulher branca conduzia 11 crianças negras - mascotes da equipe - até o campo.

As cornetas calaram-se durante a execução do hino uruguaio. Quando a África do Sul perdeu por 3 a 0, a reação foi digna, pacífica: os aspectos intangíveis que caracterizam um país.

Falemos um pouco da vuvuzela. Os jogadores queixaram-se. Há páginas do Facebook pedindo sua proibição. Os protetores de audição estão vendendo bem entre os torcedores europeus. Cornetas intoleráveis! Tenho notícias para os desconcertados: estamos na África. As cornetas são soadas como um chamado à reunião. Da corneta kudu feita com chifres em espiral até a corneta de plástico, a distância é pequena.

A vuvuzela traz consigo um simbolismo poderoso. O rúgbi, tradicional fortaleza esportiva do africâner branco, desdenhou dela. O futebol, dominado pelos negros, a adotou. Mas hoje os africâners vão até o Soweto negro para assistir às partidas de rúgbi, e brancos e negros trazem juntos suas vuvuzelas para as partidas da Copa do Mundo.

Sinto muito, os jogadores franceses terão de suportar a dor de cabeça: não estamos falando de milagres políticos de pequena expressão.

Reproduzindo uma mensagem cômica publicada via tweeter: "Após uma semana, a Europa quer abolir a vuvuzela - se ao menos eles tivessem demonstrado tamanha pressa para abolir a escravidão!" Outro dia, conversei com um parente distante, o economista Andrew Levy. Ele disse: "Não temo por minha vida, e é este o milagre da África do Sul. Dou bom dia a um negro na rua e ele responde de maneira amistosa. Sei que posso morrer num assalto, mas não por ser branco, não porque eles me odeiam, mas porque existe a pobreza. Sou patriota até o fim. Amo a beleza deste país. E quando vejo a união e o bem que a Copa do Mundo trouxe, acredito que seremos bem sucedidos." / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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