REUTERS/Yaser Al-Khodor
REUTERS/Yaser Al-Khodor

Wahabismo e terrorismo

A nova realidade do Oriente Médio pode acomodar mesmo Riad, desde que os sauditas decidam mudar de atitude

MOHAMMAD JAVAD ZARIF*, O Estado de S.Paulo

15 de setembro de 2016 | 05h00

Empresas de relações públicas que não se acanham em receber petrodólares manchados estão vivendo um período de fartura. Sua última iniciativa foi nos persuadir de que a Frente Al-Nusra, afiliada da Al-Qaeda na Síria, não está mais ligada à rede terrorista. Como disse um porta-voz da Al-Nusra à CNN, o repaginado grupo, supostamente já separado da matriz terrorista, tornou-se “moderado”.

Assim, o fanatismo da Idade das Trevas nos é vendido como um panorama otimista do século 21. O problema para os ricos clientes das empresas de RP - com frequência, sauditas que financiaram prodigamente a Al-Nusra - é que as evidências de suas políticas ruinosas não podem desaparecer com Photoshop. Se alguém ainda duvida, as recentes imagens de vídeo de outros “moderados” decapitando um garoto de 12 anos são horrível testemunho de realidade.

Desde os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, o wahabismo militante submeteu-se a uma série de cirurgias plásticas, mas por dentro a ideologia continua a mesma - seja sob a forma de Taleban, das várias encarnações da Al-Qaeda ou do chamado Estado Islâmico, que não é islâmico nem Estado.

No entanto, os milhões de pessoas confrontadas com a tirania da Frente Al-Nusra não estão caindo na história da desfiliação. Experiências anteriores dessas tentativas de repaginação de imagem apontam para o verdadeiro objetivo: permitir que o fluxo clandestino de petrodólares para grupos extremistas na Síria se torne aberto e, eventualmente, até atrair governos ocidentais para apoiar esses “moderados”. O fato de a Al-Nusra continuar dominando a aliança rebelde em Alepo neutraliza a mensagem dos relações-públicas.

Os esforços da Arábia Saudita para persuadir líderes ocidentais a dar apoio a suas táticas míopes baseia-se na falsa premissa de que mergulhar ainda mais o mundo árabe no caos vá, de algum modo, prejudicar os iranianos. 

A fantasiosa noção de que a instabilidade regional ajudará a “conter” o Irã, e as supostas rivalidades entre muçulmanos sunitas e xiitas estejam alimentando conflitos, são desmentidas pela realidade de que o pior banho de sangue ma região é causado por wahabistas combatendo amigos árabes e assassinando amigos sunitas.

Enquanto esses extremistas, com o apoio de seus ricos patrocinadores, atacam cristãos, judeus, yazidis, xiitas e outros “hereges”, são os árabes sunitas os mais prejudicados por essa exportação de doutrina do ódio. Na verdade, não é o suposto antigo conflito sectário entre sunitas e xiitas, mas a disputa entre o wahabismo e o Islã majoritário que terá as mais profundas consequências na região e além dela.

Embora a invasão do Iraque em 2003, liderada pelos americanos, tenha posto em marcha a luta que se vê hoje, a chave da violência é essa ideologia extremista promovida pela Arábia Saudita - mesmo que ela tenha ficado invisível aos olhos do Ocidente até a tragédia do 11 de Setembro.

Os príncipes de Riad, a capital saudita, estão desesperados para reviver o status quo regional dos dias do governo de Saddam Hussein no Iraque, quando um déspota repressor agindo por procuração, embalado pela riqueza e apoio material de amigos árabes e por um Ocidente ingênuo, continha a chamada ameaça iraniana. Só há um problema: Saddam morreu faz tempo, e o relógio não volta.

Quanto antes os dirigentes sauditas entenderem isso, melhor para todos. A nova realidade de nossa região pode acomodar mesmo Riad, desde que os sauditas decidam mudar de atitude.

E que mudanças seriam? Nas últimas três décadas, Riad gastou dezenas de bilhões de dólares para exportar o wahabismo por meio de milhares de mesquitas e madrassas espalhadas pelo mundo. Da Ásia à África, da Europa às Américas, essa perversão teológica tem provocado destruição. Como disse um ex-extremista de Kosovo ao NYT, “com seu dinheiro, aqui os sauditas modificaram completamente o Islã”.

Embora atraindo apenas uma diminuta proporção de muçulmanos, o wahabismo vem tendo um impacto devastador. Virtualmente todo grupo terrorista que abusa do nome do Islã - da Al-Qaeda e seus filhotes na Síria ao Boko Haram na Nigéria - inspira-se nesse culto da morte.

Até aqui, os sauditas têm se dado bem ao induzir seus aliados a prosseguir com a loucura, seja na Síria ou no Iêmen, usando o Irã como pretexto. Isso seguramente vai mudar, à medida que cresce a constatação de que o contínuo financiamento de Riad ao extremismo vai contra sua alegação de ser uma força de estabilidade.

O mundo não pode se dar ao luxo de sentar e ficar testemunhando os wahabistas atacando não apenas cristãos, judeus e xiitas, mas também sunitas. Com uma grande porção do Oriente Médio em ebulição, há o grave perigo de que os poucos bolsões de estabilidade remanescentes sejam solapados pela luta entre o wahabismo e o majoritário Islã sunita.

É preciso uma ação coordenada das Nações Unidas para cortar o financiamento ao extremismo e a ideologias de ódio, e um empenho da comunidade internacional em investigar os canais de suprimento de dinheiro e armamentos. 

Em 2013, o presidente do Irã, Hassan Rohani, propôs uma iniciativa chamada O Mundo contra o Extremismo Violento (Wave, na sigla em inglês). A ONU deveria aproveitar a iniciativa para impulsionar um maior diálogo entre religiões e seitas com vistas a conter esse perigoso fanatismo medieval.

Os ataques em Nice, Paris e Bruxelas deveriam convencer o Ocidente de que a ameaça tóxica do wahabismo não pode ser ignorada. Após um ano de trágicos acontecimentos quase semanais, a comunidade internacional precisa fazer mais que se sentir ultrajada, lamentar e enviar condolências. É preciso uma ação concreta contra o extremismo.

Embora muito da violência cometida em nome do Islã tenha origem no wahabismo, longe de mim sugerir que a Arábia Saudita não possa ser parte da solução. Muito pelo contrário: convidamos os governantes sauditas a abandonar a retórica do medo e da acusação e dar as mãos ao restante da comunidade de nações para eliminar a praga de terrorismo e violência que nos ameaça a todos. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

*É MINISTRO DAS RELAÇÕES EXTERIORES DA REPÚBLICA ISLÂMICA DO IRÃ

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