Washington critica apoio do Irã à oposição iraquiana

Um encontro da oposição iraquiana que o Irã está tentando ajudar a promover é visto com forte oposição por Washington, segundo diplomatas ocidentais e dissidentes iraquianos que dizem que a administração Bush está mostrando cada vez mais sinais de frieza em relação aos oponentes exilados de Saddam Hussein.Hoshyar Zibari, um líder do Partido Democrático do Curdistão, cujo grupo planeja sediar o encontro numa área sob seu controle no norte do Iraque, afirmou nesta semana que líderes da oposição começaram a convergir para a conferência marcada para 15 de fevereiro. O encontro fora originalmente programado para 15 de janeiro e foi remarcado por duas vezes.Dissidentes vindos do exterior, incluindo aqueles apoiados pelos Estados Unidos, estão passando através do vizinho Irã, com a bênção das autoridades iranianas.O Irã não tem relações com os Estados Unidos desde que clérigos muçulmanos radicais derrubaram, em 1979, o xá apoiado por Washington e estudantes tomaram a embaixada dos EUA em Teerã e mantiveram americanos como reféns. Agora, o Irã teme que Washington instale um regime amigo dos americanos no Iraque pós-Saddam, fechando um círculo de aliados dos EUA ao redor do Irã.Um grupo-chave da oposição iraquiana, o xiita Conselho Supremo para a Revolução Islâmica no Iraque, está baseado há anos no Irã e agora parece disposto a forjar relações com outros dissidentes, a fim de garantir a continuidade de seu protagonismo político em qualquer cenário que surja após Saddam.Dissidentes iraquianos afirmam que um antigo general de brigada iraquiano vivendo exilado nos Estados Unidos, Najib al-Salehi, viajou recentemente para o Irã a fim de informar ao Conselho Supremo para a Revolução Islâmica no Iraque que tropas americanas irão atacar combatentes do conselho baseados no Irã, caso eles tentem entrar no Iraque durante uma possível guerra.Mohammed Baqir al-Hakim, líder do conselho, disse à Associated Press, nesta semana, que batalhas em campo lideradas pelos EUA têm de ser a ponta-de-lança para forças oposicionistas iraquianas.Diplomatas ocidentais disseram que estrategistas dos EUA consideram desestabizador o apoio dado pelo Irã às forças xiitas no oeste do Afeganistão, e temem também o papel que o Irã possa desempenhar no Iraque, através de seus aliados xiitas.Numa entrevista por telefone hoje de sua casa na região de Washington, al-Salehi, que seria o coordenador dos esforços com oficiais do Exército de Saddam dentro do Iraque para uma possível rebelião assim que a guerra tiver início, confirmou ter ido a Teerã mas declinou comentar suas discussões com al-Hakim."Só posso dizer que a administração (dos EUA) não quer um governo interino (no Iraque)", afirmou.O envolvimento do Irã pode ser apenas uma das razões pelas quais os EUA rejeitam o planejado encontro do Comitê de Coordenação e Acompanhamento, de 65 membros da oposição iraquiana, que foi criado num encontro oposicionista apoiado pelos EUA em Londres, em dezembro.Mowaffak al-Rubaie, um membro xiita independente do comitê, disse hoje que a fé compartilhada dos xiitas iraquianos e iranianos não significa que o Irã deva esperar ter uma presença política num Iraque pós-Saddam.Al-Rubaie afirmou numa entrevista por telefone, de Londres, que o planejado encontro no norte do Iraque deve estabelecer o núcleo de uma liderança que monitorará nove subcomitês, responsáveis por administrar o governo por um período interino, no Iraque pós-Saddam."Não vamos chamá-lo de um governo interino, mas naturalmente ele irá monitorar todos os assuntos do dia-a-dia dos ministros", explicou al-Rubaie.Enquanto os dissidentes iraquianos contemplam o comitê como um futuro gabinete, autoridades americanas têm falado de uma transição gradual da autocracia para a democracia, com um papel para os iraquianos agora dentro do país assim como para exilados que retornarem, e com os militares dos EUA inicialmente mantendo a ordem e, talvez, monitorando reformas políticas. Profundas divisões entre os dissidentes podem ter levantado dúvidas em Washington sobre se eles estão prontos para governar.Diplomatas ocidentais e grupos de oposição iraquianos afirmam que os EUA têm assinalado que não querem que os dissidentes promovam o encontro no norte do Iraque."O Departamento de Estado não está dizendo diretamente que não podemos nos reunir. Ele diz que não pode oferecer garantias de segurança", revelou um dissidente à AP. "Na verdade, eles não pensam que a oposição é... o melhor amigo deles, quando se trata do futuro do Iraque".

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.