Washington critica ausência de reformas em discurso de sírio

EUA estão longe de exigir uma mudança de regime na Síria, mas lamentam as ''teorias conspiratórias'' na fala de Assad

Gustavo Chacra, O Estado de S.Paulo

31 Março 2011 | 00h00

NOVA YORK

Apesar de ainda se manter distante de pedir uma mudança de regime em Damasco, o governo dos EUA lamentou a ausência de reformas no discurso do presidente sírio, Bashar Assad, e criticou a afirmação do líder de que existe uma conspiração internacional contra o seu regime.

"É bem mais fácil criar teorias conspiratórias do que responder a pedidos por reformas", disse Mark Toner, porta-voz do Departamento de Estado americano, horas depois do discurso de Assad. "Está claro que não havia substância (nas acusações feitas pelo líder sírio)", acrescentou. O presidente da Síria afirmou que o país é alvo de um complô que envolve "países próximos e distantes", citando Israel, mas não os EUA.

Segundo Toner, o governo americano acredita "que o povo sírio tenha ficado decepcionado. Na nossa avaliação, o discurso não atendeu às demandas por reformas e tampouco cumpriu as expectativas criadas pelos próprios assessores de Assad".

Segundo membros do regime de Damasco, o líder sírio anunciaria grandes mudanças em seu discurso de ontem, incluindo a revogação do estado de emergência em vigor desde 1963, quando o atual presidente nem havia nascido. Mas nada disso aconteceu.

Desde o início do governo de Barack Obama, segundo a secretária de Estado, Hillary Clinton, parlamentares republicanos e democratas têm avaliado Assad como um reformista, apesar de as sanções unilaterais impostas em 2004 terem sido mantidas. Analistas nos EUA também acrescentam que o líder sírio estaria disposto a levar adiante reformas. Mas a lentidão de Assad passou a irritar o governo americano.

O próprio porta-voz do Departamento de Estado, antes do discurso do líder sírio, afirmou que Assad "tem prometido reformas há mais de uma década, mas não fez progressos substantivos nas reformas políticas".

PERGUNTAS E RESPOSTAS

Influência sobre parte da região

1. Por que a Síria é tão importante para a região?

Ela exerce influência sobre o Iraque, os territórios palestinos e o Líbano. Os sírios apoiam grupos hostis aos israelenses, como o Hamas, em Gaza, e o grupo libanês Hezbollah. O Irã ainda é o seu principal aliado no Oriente Médio

2. Por que o estado de emergência vigora há 48 anos?

Oficialmente, a Síria mantém o estado de emergência por causa do conflito com os israelenses - ambos disputam as Colinas de Golã. Mas, ao longo destas quase cinco décadas, tal lei tem sido usada para

reprimir a oposição doméstica

3. Por que Assad tem tanto apoio na capital e pouco no sul do país?

Em Damasco, Assad conta com o funcionalismo público. O líder sírio ainda facilita os negócios da elite sunita. Já em Deraa, centro das manifestações de oposição, os habitantes enfrentam mais dificuldades na hora de comprar e vender terras por ser uma região fronteiriça

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