Washington é alvo de grupos rivais no Egito

Ódio aos EUA - que põe US$ 1,3 bi por ano no país - une inimigos após queda de Morsi

ROBERTO SIMON, O Estado de S.Paulo

11 de agosto de 2013 | 10h51

Um mês após a queda de Mohamed Morsi, uma velha arma da política egípcia voltou à moda: a arte do antiamericanismo. Facções em luta no Cairo parecem discordar sobre tudo e uma solução negociada nunca esteve tão distante. Denunciar complôs de Washington em busca de dividendos políticos virou a estratégia de todos os lados em conflito - isso em um país onde os EUA despejam anualmente US$ 1,3 bilhão em ajuda militar.

Entre partidários dos militares, circulam caricaturas do presidente Barack Obama de barba espessa e turbante islâmico, como o "terrorista" que sustentou a Irmandade Muçulmana no poder. Na versão do campo pró-Morsi, Obama, velho aliado dos generais de Hosni Mubarak e padrinho de Israel, patrocinou o golpe para sepultar uma alternativa islâmica e democrática no mundo árabe.

O governo interino enfatiza sua contrariedade com os americanos. "Vocês (os EUA) abandonaram os egípcios. Viraram as costas para os egípcios e eles não esquecerão", disse, em entrevista ao Washington Post, o chefe das Forças Armadas do Cairo, o general Abdel Fattah al-Sisi - responsável pelo golpe de 3 de julho, educado em uma academia militar americana.

Jovens laicos do Cairo se divertem com um novo hit no YouTube, o clipe de uma famosa dançarina do ventre, Sama Elmasry, em que ela canta sobre o "terrorista Obama" (até o pai e a mãe do presidente não escapam de rimas pouco elogiosas) e louva a "força de nossos militares".

A situação piorou na semana passada com a viagem dos senadores americanos John McCain e Lindsey Graham ao Cairo para tentar mediar uma solução. McCain causou alvoroço numa entrevista ao chamar de "golpe" a destituição de Morsi.

"Se anda como um pato e grasna como um pato, então é um pato", justificou-se sob críticas. No dia seguinte, a manchete do jornal Al-Ahram, próximo dos militares, era "Vulcão de revolta". Também ligado aos generais, o Al-Masri Youm, citando uma suposta fonte de Washington, dizia que McCain tinha o objetivo deliberado de "frustrar a transição no Egito".

Analistas concordam que, com o antiamericanismo em alta, cai a influência dos EUA sobre os destinos da política egípcia, apesar da ajuda bilionária. "A verdade é que Washington não pode ganhar esse jogo no Egito, pois a política local tem um pequeno segredo sujo: todos os lados publicamente atacam os EUA, enquanto, a portas fechadas, desejam o apoio americano", disse ao Estado Hani Sabra, analista egípcio da consultoria Eurasia. "Diante dessa dinâmica, há muito pouco que os EUA possam fazer."

Sabra, entretanto, considera altamente improvável a suspensão da ajuda de Washington ao Cairo. O Egito é o segundo na lista de maiores receptores de dinheiro dos EUA, atrás apenas de Israel. Um estudo do Congresso americano, preparado este ano, estima que o total de dinheiro enviado ao longo dos anos ultrapasse US$ 71 bilhões.

Sob a rubrica de "ajuda militar" de US$ 1,3 bilhão por ano, entram programas milionários de compra de armas e equipamentos americanos. Portanto, o corte desse dinheiro - que foi recentemente recusado no Senado por democratas e republicanos - afetaria diretamente empresas e trabalhadores da indústria armamentista dos EUA.

Para Marc Lynch, da Universidade George Washington, a ditadura Mubarak também jogava habilidosamente com o antiamericanismo, tentando mostrar sua independência em relação a Washington e, assim, legitimar-se. Após um período de incerteza desde a queda de Mubarak, acusar os EUA tornou-se, mais uma vez, "útil para todas as facções egípcias", escreveu Lynch na Foreign Policy.

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