Washington e Cairo negociam expandir a cooperação militar

Cenário: Steven Lee Myers e Thom Shanker

O Estado de S.Paulo

13 de agosto de 2012 | 03h03

Em consequência do ataque que matou 16 soldados egípcios perto da fronteira com Israel, na semana passada, EUA e Egito negociam um pacote de assistência para solucionar o que o governo americano descreve como "um vazio de segurança" que se deteriora na Península do Sinai.

No mês passado, o novo presidente egípcio, Mohamed Morsi, e seus assessores militares reagiram negativamente quando os secretários americanos de Estado, Hillary Clinton, e de Defesa, Leon Panetta, pressionaram por uma ação mais agressiva contra extremistas que operam no Sinai. Mas, após o ataque, o Egito parece ter superado suas preocupações com a soberania, aprofundando as discussões sobre a nova ajuda americana. O pacote incluirá fornecimento de equipamento militar, treinamento de forças policiais e vigilância eletrônica e aérea.

A ofensiva terrorista, em que pelo menos 35 homens armados e usando máscaras tomaram de assalto um posto de fronteira egípcio e se apropriaram de dois veículos militares que usaram para invadir a fronteira com Israel, abalou profundamente o governo de Morsi. A resposta veio com a destituição do chefe da inteligência do Egito, além de uma operação militar em retaliação - registrando os primeiros ataques de helicópteros no Sinai desde que Israel encerrou sua ocupação, em 1982.

Autoridades americanas e israelenses encaram a resposta do Egito ao atentado do último domingo como um importante teste. Em um sentido mais amplo, está em jogo o compromisso do Cairo com a segurança, após a revolta que em 2011 derrubou o presidente Hosni Mubarak.

Embora o Exército dos EUA já tenha elos com os egípcios, um empenho maior e mais direto discutido no momento pode unir ainda mais estreitamente os dois lados contra a ameaça do extremismo. Outro benefício seria a superação das reservas de algumas autoridades de Washington quanto ao fato de Morsi ser da Irmandade Muçulmana, organização há muito tempo vilipendiada pelos políticos americanos por sua posição antiocidental e política islamista.

O Pentágono vem debatendo uma série de opções de compartilhamento de inteligência com o Exército e a polícia do Egito no Sinai. Entre elas, a interceptação de conversas por rádio ou celular de militantes suspeitos de tramar ataques e uso de imagens aéreas fornecidas por aviões - pilotados ou não tripulados - ou mesmo satélites.

"Continuamos a discutir maneiras de aumentar e melhorar o conhecimento da situação no Sinai por parte dos egípcios", disse uma fonte do Pentágono. As conversações em curso se realizam por meio dos canais militares e da inteligência, que os dois países utilizam há décadas, e também com o novo governo de Mohamed Morsi. Hillary viajou na semana passada à África, conversou por telefone com o novo premiê egípcio, Hisham Kandil, para lamentar as mortes e propor maior ajuda.

Embora receba US$ 1,5 bilhão ao ano em armas e outros tipos de ajuda militar dos EUA, o Egito é totalmente contrário a um envolvimento direto dos americanos na sua segurança e, pelo menos em público, despreza a ajuda recebida. Mesmo a assistência mais comum que está em discussão no momento - o fornecimento de equipamento e o treinamento da polícia - tem enfrentado resistência. No entanto, após as conversações da semana passada, as autoridades disseram estar otimistas de que o governo de Morsi aceitará uma maior colaboração por parte do Exército americano.

As preocupações com a segurança no Sinai aumentaram com a Primavera Árabe, mas não são novas. O problema tem múltiplas causas, incluindo a negligência do governo diante das tribos beduínas e o tratado com Israel limitando pessoal e poderio militar na região. / NYT

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