Washington faz pouco caso de concessões iraquianas

Diante da relutância do porta-voz do departamento de Estado, Richard Boucher, em fazer uma declaração minimamente positiva sobre a decisão do governo do Iraque de atender uma das demandas dos inspetores de armas das Nações Unidas e permitir os vôos sobre o país dos aviões de espionagem U-2, um jornalista perguntou-lhe, hoje , durante a entrevista coletiva diária no departamento de Estado: "A administração sequer creditará isso como um passo na direção certa, correto?" Resposta de Boucher: "A resolução (1441, do Conselho de Segurança) não pediu para o Iraque dar passos; a resolução pediu cumprimento pleno e imediato e total cooperação". "Os iraquianos não apresentaram os 3.500 cientistas na lista na ONU, não revelam onde estão os laboratórios de armas biológicas e não voluntariaram muitas outras coisas especificadas (na resolução) que o secretário de Estado (Colin Powell) apontou na sua apresentação (ao Conselho de Segurança) na semana passada", disse o porta-voz.A Casa Branca também descontou a concessão anunciada por Bagdá e manteve a pressão. "O presidente está interessado em desarmamento, e isso (a permissão para os vôos do U-2) não altera nada".Declarações como essas deverão ser repetidas em Washington até a próxima sexta-feira, quando o chefe da equipe de inspetores de armas, Hans Blix, apresentará mais um relatório ao Conselho de Segurança, com base nos encontros com as autoridades iraquianas que teve Bagdá, no último fim de semana. A imprensa americana dividiu-se hoje na avaliação do resultado da visita. O Washington Post informou que Blix havia fracassado em sua tentativa de obter concessões-chave. A rede CNN viu "algum progresso". A administração ficou com a versão mais negativa, e parece determinada a usá-la para acelerar a confrontação já armada com a França e a Alemanha sobre o que fazer depois do próximo relatório de Blix.No domingo, depois que Blix já havia deixado Bagdá, Powell afirmou que Saddam Hussein não está cooperando com as Nações Unidas. O secretário de Estado informou que, se isso não mudar até a próxima sexta-feira, o governo dos EUA pedirá ao Conselho de Segurança que inicie imediatamente a discussão de uma resolução que ateste que o Iraque violou a resolução 1.441 e autorize o uso da força. De acordo com fontes diplomáticas, a insistência de Washington numa nova resolução não representa uma mudança da posição anunciada anteriormente pela administração Bush, segundo a qual não é necessário obter um novo mandato da ONU para uma solução armada, pois esta já está compreendida nas "sérias conseqüências" previstas na 1.441.O objetivo principal é atender ao primeiro-ministro da Grã-Bretanha, Tony Blair, o principal aliado dos EUA na confrontação com o Iraque, que precisa de uma segunda resolução, por fraca que seja, para ir à guerra. Os estrategistas americanos acreditam, por outro lado, que a discussão de uma nova resolução deixará a França numa situação insustentável e que o governo de Jacques Chirac acabará apoiando o uso da força. O cálculo é que, se Paris usar seu poder de veto, estará assinando o atestado de irrelevância do Conselho de Segurança, porque a ausência de uma resolução não impedirá as tropas americanas de entrar em ação para fazer cumprir a ordem de desarmamento do Iraque.Powell descartou um plano que a França, a Rússia e a Alemanha estariam preparando para que as equipes de inspetores sejam ampliadas e reforçadas pela presença de soldados com os capacetes azuis da ONU. A existência do plano foi revelada no fim da semana pela revista Der Spielgel. "Eu não sei qual é o valor prático disso", afirmou o chefe da diplomacia americana. "O que os capacetes azuis fariam? Entrariam no Iraque atirando nas fortificações iraquianas?"

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