Washington jamais admitiu ciberataque

Obama expressou preocupação de que terror poderia usar admissão para justificar suas ações

WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

02 de junho de 2012 | 03h04

O governo americano só admitiu recentemente o desenvolvimento de armas cibernéticas, e jamais reconheceu tê-las usado. Houve relatos de ataques isolados contra computadores pessoais usados por membros da Al-Qaeda, e do planejamento de ataques contra os computadores responsáveis pelos sistemas de defesa antiaérea, em momentos como o ataque aéreo comandado pela Otan contra a Líbia no ano passado.

Mas a chamada Operação Jogos Olímpicos foi de uma natureza e sofisticação muito diferentes. Esta parece ter sido a primeira vez em que os EUA empregaram repetidamente armas cibernéticas para prejudicar a infraestrutura de outro país, conseguindo um efeito que até então só podia ser obtido por meio de bombardeios aéreos ou envio de agentes que plantassem explosivos no alvo. O código em si é 50 vezes maior do que um worm comum de computador, disse o vice-presidente da Symantec - um dos muitos grupos que dissecaram o vírus -, Carey Nachenberger, num simpósio na Universidade Stanford, em abril. Embora tenham desvendado o seu funcionamento, as investigações do mecanismo interno do código não chegaram a nenhuma conclusão quanto a quem seria o responsável por ele.

Um processo semelhante está agora em andamento para desvendar as origens de outra arma cibernética, chamada Flame, que teria atacado recentemente os computadores de funcionários do governo iraniano, roubando as informações contidas nas máquinas. Mas o código de computador parece ter pelo menos cinco anos e os representantes americanos dizem que ele não fazia parte da Jogos Olímpicos. Eles não revelaram se os EUA foram os responsáveis pelo ataque do Flame.

De acordo com participantes de muitas reuniões na Sala de Situação a respeito dos Jogos Olímpicos, Obama tinha plena consciência de que cada ataque empurrava os EUA para um território desconhecido, assim como seus antecessores fizeram quando usaram armas atômicas pela primeira vez nos anos 40, os mísseis intercontinentais nos anos 50 e, na última década, as aeronaves não tripuladas.

Ele expressou repetidas vezes a preocupação com a possibilidade de uma admissão americana do uso de armas cibernéticas - ainda que sob as circunstâncias mais cuidadosas e limitadas - levar outros países, terroristas e hackers a justificar os próprios ataques.

"Debatemos essa ironia mais de uma vez", disse um dos assessores do presidente. Outro disse que o governo resistia ao desenvolvimento de uma "grande teoria envolvendo uma arma cujas possibilidades ainda estavam sendo descobertas". Mas Obama concluiu que, em se tratando de deter o Irã, os EUA não tinham alternativa.

Ele disse aos assessores que, se a Jogos Olímpicos fracassasse, não haveria tempo para esperar que as sanções e a diplomacia surtissem efeito. Israel poderia se envolver num ataque militar convencional contra o Irã, precipitando um conflito que poderia se espalhar pela região. / D.S.

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