'Washington precisa do líder taleban bem vivo'

Para especialista, não há estratégia para um Afeganistão estável que não passe por um acordo com o mulá Omar

Adriana Carranca, O Estado de S.Paulo

11 Setembro 2011 | 00h00

ENTREVISTA

Ahmed Rashid, jornalista e escritor paquistanês

Ahmed Rashid estava em Cabul quando um golpe patrocinado pela URSS derrubou o governo no Afeganistão, em 1978. Um ano depois, em Kandahar, viu os tanques soviéticos avançarem sobre território afegão e serem expulsos, anos depois, pelos mujahedin (combatentes islâmicos). Vitoriosos, os comandantes - financiados e treinados pela inteligência americana - mergulharam o país num sangrento conflito civil, que Rashid testemunhou. Então, o jornalista paquistanês viu surgir um grupo de estudantes (taleban, em árabe) que prometia ordem e justiça e, seduzido, juntou-se a eles nas montanhas de Hindu Kush até tomarem o controle da capital em 26 de setembro de 1996 - sob a bênção de Osama bin Laden, que partiu dali com ambições de invocar uma jihad global. Era o prenúncio da Al-Qaeda. Testemunha privilegiada da história, Rashid alertou o Ocidente muitas vezes sobre o fenômeno do islamismo militante na Ásia Central e as ameaças que representava, mas o mundo não tinha interesse nisso até o 11 de Setembro. Pouco depois de ver na TV o segundo avião chocar-se contra a Torre Sul do World Trade Center, o telefone de sua casa tocou em Lahore, no Paquistão; era um chamado da Casa Branca. Dez anos depois do 11/9, o Ocidente parece de novo não lhe dar ouvidos. "Retirar as tropas do Afeganistão sem encontrar uma solução política para pôr fim à guerra é loucura", sentencia o autor, de 62 anos. Nesta entrevista, por telefone, ele faz um balanço da década e explica por que os EUA precisam de mulá Mohammed Omar, o número 1 do Taleban, vivo.

O 11/9 dez anos depois. "Acho que hoje todos sabemos que a guerra no Iraque foi injustificada e os recursos e esforços desperdiçados na caça a Saddam Hussein deveriam ter ido para o Afeganistão. Tivesse a economia, o Estado, as Forças Armadas, a Justiça afegãos sido reerguidos, os EUA não estariam agora afundados num conflito sem fim, com a insurgência mais forte e ousada e sob a ameaça de uma Ásia Central instável com o Paquistão numa profunda crise entre os militares e o governo civil, além da escalada do terror na região - ameaças mais reais do que o 11/9. O maior erro da era Bush foi subestimar o efeito da reconstrução do Estado afegão."

A saída das tropas. "Você não invade um país sem ter a certeza de que pode deixar, ao sair, uma nação que funcione. Deixar o Afeganistão sem antes chegar a uma solução política na região é loucura. Os EUA perderam a chance de pressionar o Paquistão no início para entregar os líderes taleban que atravessaram a fronteira e encontraram abrigo no país. Agora, com a volta da insurgência, a única saída possível é um acordo com o Taleban ou o que os EUA deixarão para trás será uma guerra civil muito mais violenta do que quando os soviéticos se retiraram do país, em 1989. E isso será algo com que terão de lidar depois."

A insurgência. "A recente campanha do Taleban, que ataca as forças de segurança e funcionários de alto escalão afegãos, é uma resposta direta à intensificação dos bombardeios dos EUA com aviões não tripulados na fronteira com o Paquistão. O primeiro passo a ser dado é chegar a um acordo no qual americanos e Taleban se comprometam com a redução da violência. Só então será possível conversar."

O Taleban. "O grupo está muito dividido e a única força que os mantém coesos é o líder mulá Omar. É por isso que os EUA precisam dele vivo e bem vivo. Qualquer negociação certamente precisará do aval dele. Sem o líder, a insurgência se dividiria em dezenas de subgrupos. Seria o fim de qualquer chance de paz. Outra vantagem é que o velho Taleban, o Taleban de mulá Omar, que dominou o país no fim dos anos 90, está cansado de guerra, exausto. Eles sofreram enormes baixas nesses conflitos, estão fartos da vida no exílio e de serem manipulados pelo Paquistão. São afegãos, afinal. É hora de os EUA levarem as negociações a sério."

A Casa Branca. "Há divisões em Washington entre os militares e a CIA sobre o Afeganistão. Muitos não acreditam que a estratégia de matar os taleban, como hoje, é a melhor solução. Ao mesmo tempo estamos vendo a intensificação dos bombardeios. Não há sinal por parte dos EUA de redução da violência. Por isso, o Departamento de Estado enfrenta dificuldades para seguir negociando. Ninguém assumiu o papel de trazer todos à mesa de negociações por uma solução sustentável. E isso inclui os vizinhos Paquistão, Irã, China e Rússia, além da Índia. Todos esses países têm assegurado alguma influência no país, seja com investimentos, influência diplomática ou apoio a milícias." O Paquistão. "A administração Bush foi muito complacente com o ex-presidente do Paquistão Pervez Musharraf. Nunca foi suficientemente dura porque ao mesmo tempo em que as Forças Armadas e o serviço secreto (ISI) davam abrigo aos taleban em Quetta, Musharraf entregou membros da Al-Qaeda de menor escalão para os EUA. Enquanto isso, o Taleban se fortaleceu no Paquistão nesses dez anos e houve a ascensão de outros grupos fundamentalistas como a rede Haqqani e o Hezb-e Islami, que se tornaram muito poderosos. Grupos que hoje realizam ataques contra o Paquistão. De repente, Bin Laden é morto numa operação secreta dos EUA em Abbottabad, cidade militar a poucos quilômetros da capital. As Forças Armadas, que estavam no controle, agora estão humilhadas, envergonhadas e desmoralizadas. O que estamos assistindo no Paquistão depois da morte de Bin Laden é ao colapso do Estado. Você tem um governo civil irrelevante, incompetente e corrupto, uma democracia que tem se provado incapaz de governar. Isso faz com que os militares continuem muito poderosos."

A Al-Qaeda sem Bin Laden. "O conceito de jihad global não desapareceu com Bin Laden. O que vimos nos últimos dez anos foi o crescimento da Al-Qaeda em áreas onde nunca esteve antes. Hoje, há células da rede em praticamente toda a Europa, norte da África... A organização continua muito poderosa, porque sua mensagem tem eco em grupos independentes. Uma das razões é que a política americana no Afeganistão, Iraque, Paquistão não foi bem-sucedida.Os EUA subestimam isso e os terroristas estão vencendo a guerra."

Retirada

Plano de saída das tropas americanas prevê a volta de 30 mil soldados em 2012 e os 70 mil restantes até 2014

Paquistão

Visto como um aliado nada confiável dos EUA na região, país recebeu U$ 20 bilhões dos cofres americanos desde 2001

Al-Qaeda

Desde o 11/9, a organização promoveu atentados em Bali, Casablanca, Madrid e London, além de Iraque e Afeganistão

Bin Laden

O fundador da rede terrorista Al-Qaeda foi morto em uma operação secreta dos EUA, em Abbottabad, em 1º de maio

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