Washington subestimou ameaça do Estado Islâmico, admite Obama

O presidente Barack Obama admitiu ontem que a inteligência americana subestimou a ameaça representada pelo Estado Islâmico (EI), que desde o ano passado conquistou parte dos territórios da Síria e do Iraque e se transformou em um polo de atração de jihadistas de todo o mundo. Apesar de defender uma solução política de longo prazo para a crise, ele afirmou que a resposta militar é essencial para conter os extremistas.

CLÁUDIA TREVISAN, CORRESPONDENTE / WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

29 de setembro de 2014 | 02h01

"Temos de forçá-los a recuar, encolher seu espaço, ir atrás de seus comandos, controle e capacidade, de suas armas e de seu abastecimento, cortar seu financiamento e trabalhar para eliminar o fluxo de combatentes estrangeiros", declarou Obama em entrevista ao programa 60 Minutos, da rede CBS, transmitido na noite de ontem.

Obama reconheceu ainda que seu governo superestimou a habilidade do Exército do Iraque de enfrentar o avanço do EI, que dominou cidades importantes iraquianas desde o início do ano. Treinados e equipados pelos EUA durante a guerra que durou de 2003 a 2011, muitos soldados iraquianos fugiram dos extremistas, deixando para trás armas, veículos de guerra e munição.

Em 7 de agosto, Obama ordenou ataques aéreos contra posições do EI no norte do Iraque, na primeira operação militar dos EUA no país desde a retirada das tropas americanas, em 2011. Há uma semana, ele autorizou bombardeios contra o grupo na Síria, país mergulhado há três anos e meio em uma guerra civil que já deixou quase 200 mil mortos.

Segundo Obama, o caos provocado pelo conflito permitiu que remanescentes da Al-Qaeda no Iraque se reorganizassem na Síria, que se tornou o "marco zero" para jihadistas de todo o mundo - "da Europa aos EUA, Austrália e outras partes do mundo muçulmano".

O presidente resistiu por meses em autorizar a ação militar contra o grupo e, em janeiro, deu entrevista na qual comparava os ex-combatentes da Al-Qaeda que avançavam sobre o Iraque a integrantes de um time de basquete juvenil, que não deveria ser confundido com os grandes nomes da NBA.

"Acho que há uma distinção entre a capacidade e o alcance de um (Osama) bin Laden e uma rede que está ativamente planejando atentados terroristas à pátria versus jihadistas engajados em várias lutas e disputas locais de poder, quase sempre sectárias", disse na ocasião à revista New Yorker.

Desde que autorizou a ação militar, Obama tem repetido que a operação não contemplará o envio de forças terrestres ao Iraque e à Síria. Mas vozes no Congresso e no próprio governo ponderam que o envio de soldados pode ser necessário, caso as forças iraquianas sejam incapazes de enfrentar o EI.

O presidente da Câmara dos Representantes, o republicano John Boehner, disse ontem que ataques aéreos serão insuficientes para derrotar os extremistas e defendeu o uso de forças terrestres, caso nenhum outro país desempenhe esse papel de modo eficaz. "Não temos escolha. Eles são bárbaros. Eles pretendem nos matar. E se nós não os destruirmos primeiro, vamos pagar o preço", declarou Boehner em entrevista ao programa This Week, da rede ABC.

Em depoimento no Congresso no dia 17, o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, general Martin Dempsey, contemplou o envio de soldados à região, ainda que em missões limitadas. "Para ser claro, se nós alcançarmos um ponto no qual eu acredite que nossos conselheiros devam acompanhar as forças iraquianas em ataques contra alvos específicos do Isil, recomendarei isso ao presidente", declarou Dempsey, usando a sigla preferida pelo governo americano para se referir ao EI.

Depois do depoimento, a Casa Branca reiterou que não pretende enviar forças terrestres à região. O encerramento das guerras do Iraque e do Afeganistão era uma das principais promessas de campanha de Obama, que declarou o fim do primeiro conflito em 2011. A maior parte dos 29 mil soldados americanos que estão no Afeganistão voltará aos EUA em dezembro, quando a missão de combate no país será encerrada.

Obama espera que o novo presidente afegão, Ashraf Ghani, assine acordo de segurança que permita a manutenção de 9,8 mil soldados dos EUA no país para de treinar e assessorar as forças locais. A permanência de tropas remanescentes no Iraque após 2011 foi rejeitada pelo então premiê Nuri al-Maliki. A retirada total dos EUA é apontada como um dos fatores da degradação da capacidade do Exército iraquiano de enfrentar o EI.

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