Washington tenta ampliar negociações de paz

Para governo americano, o estabelecimento de relações entre Israel, Líbano e Síria, além de nações do Golfo, ajudarão no isolamento do Irã

Gustavo Chacra CORRESPONDENTE / NOVA YORK, O Estado de S.Paulo

20 de setembro de 2010 | 00h00

Os EUA decidiram ampliar o processo de paz, antes restrito a palestinos e israelenses, a outros países árabes. O processo, ainda em fase de consulta indireta, tem como objetivo resolver o conflito de Israel com a Síria e o Líbano, além do estabelecimento de relações do Estado judaico com as nações do Golfo Pérsico e do Norte da África. Outro efeito seria o isolamento do Irã.

Os primeiros sinais claros foram dados na semana passada pelo enviado especial dos EUA ao Oriente Médio, George Mitchell, depois de encontro com o presidente da Síria, Bashar Assad, em Damasco, e com o premiê libanês, Saad Hariri, em Beirute. Segundo o negociador americano, o presidente Barack Obama defende acordos de Israel com Síria e Líbano para contribuir para a paz na região.

A estratégia não é nova. Alguns assessores de política externa de Obama a defendem desde a campanha de 2008. No início do mandato, a chamada "via síria" chegou a ser prioridade em detrimento da palestina, antes de ser deixada de lado. Com a retomada nas negociações entre Israel e a Autoridade Palestina, os EUA decidiram reabrir os contatos com Damasco com o temor de um fracasso no diálogo entre o premiê Binyamin Netanyahu e o presidente palestino, Mahmoud Abbas.

Além disso, negociações com a Síria podem facilitar a estabilização do Iraque e o isolamento do Irã. No primeiro caso, americanos e sírios adotam posições similares em Bagdá, onde defendem um Estado não sectário. No caso do Irã, segundo artigo da revista Foreign Affairs escrito por Robert Malley e Peter Harling - analistas do International Crisis Group -, "negociações de paz entre Israel e a Síria afetariam mais os cálculos de Teerã que novas rodadas de sanções na ONU".

Autoridades sírias indicam que o diálogo já começou, mas está aquém do desejado por Damasco. Segundo o Estado apurou, Israel impõe como condição o rompimento de laços entre Síria e Irã antes de debater outros temas. O presidente Assad não estaria disposto a abrir mão de seu principal aliado sem a certeza de que terá de volta as Colinas do Golã, ocupadas por Israel na Guerra dos Seis Dias (1967).

"A Síria está muito interessada nas negociações e quer o Golã de volta. Além disso, com uma economia fraca, Damasco sabe que um acordo de paz com Israel levaria ao fim das sanções unilaterais dos EUA", diz Joshua Landis, professor da Universidade de Oklahoma. Um empecilho é que os israelenses veem os sírios com desconfiança por causa do apoio ao Hezbollah e ao Hamas.

PARA ENTENDER

Nem todos os países árabes são inimigos de Israel. Egito e Jordânia têm tratados de paz com os israelenses. Iêmen e Iraque, dependentes dos EUA, são indiferentes. Apenas a Síria, o Líbano e os palestinos têm conflitos com Israel. O Irã, que é persa, apesar de não ter disputas territoriais com Israel, é considerado seu maior inimigo.

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