Web: criadora ou destruidora?

Egípcio que desencadeou revolução contra Hosni Mubarak pede ‘libertação da internet’

Thomas Friedman, O Estado de S.Paulo

05 de fevereiro de 2016 | 06h54

Nos últimos anos, temos nos deleitado com uma série de “revoluções no Facebook” que vão da Primavera Árabe ao Occupy Wall Street e às praças de Istambul, Kiev e Hong Kong. Todas incentivadas pelas redes sociais. Mas, assim que a poeira baixa, a maioria dessas revoluções fracassa na construção de qualquer ordem política sustentável, em parte porque na medida em que tantas vozes são amplificadas, a formação de consenso torna-se impossível.

Pergunta: isso significa que as redes sociais são melhores em romper coisas do que em construí-las?

Recentemente, uma importante voz respondeu a essa questão com um grande “sim”. Essa voz é Wael Ghonim, funcionário egípcio da Google cuja página anônima no Facebook ajudou a dar início à revolução na Praça Tahrir – no começo de 2011 – que derrubou o presidente Hosni Mubarak, mas depois fracassou em dar à luz uma alternativa realmente democrática.

Em dezembro, Ghonim, que desde então se mudou para o Vale do Silício, participou de um TED Talk a respeito do que deu errado. Vale a pena assistir ao vídeo, que começa assim: “Uma vez, eu disse: ‘se você quer libertar a sociedade, tudo de que precisa é da internet’. Eu estava errado. Eu disse essas palavras em 2011, quando a página do Facebook que eu criei anonimamente ajudou a dar início à revolução egípcia. A Primavera Árabe revelou o maior potencial das redes sociais, mas também expôs suas maiores deficiências. A mesma ferramenta que nos une para derrubar ditadores, eventualmente nos distancia.”

No início da primeira década do milênio, os árabes estavam se congregando na rede, explicou Ghonim: “Sedentos por conhecimento, por oportunidades, por conexão com o restante dos povos do mundo, escapamos de nossas realidades politicamente frustrantes e vivemos uma vida virtual alternativa.”

Em julho de 2010, lembra ele, a “internet mudou minha vida para sempre. Enquanto navegava pelo Facebook, vi uma fotografia ... do corpo torturado e morto de um jovem egípcio. Seu nome era Khaled Said. Khaled era um jovem de 29 anos de Alexandria que foi morto pela polícia. Eu me vi naquela imagem ... criei anonimamente uma página no Facebook e a chamei de Somos Todos Khaled Said. Em apenas três dias, a página já tinha mais de 100 mil seguidores, companheiros egípcios que compartilhavam da mesma preocupação”.

Ghonim foi, por fim, localizado pelos serviços de segurança egípcios no Cairo, espancado e mantido incomunicável por 11 dias. Mas três dias após ser libertado, os milhões de manifestantes seguidores de sua página do Facebook ajudaram a colocar em marcha a queda do regime de Mubarak.

Infelizmente, a euforia rapidamente se esvaneceu, disse Ghonim, porque “fracassamos em construir um consenso e a luta política levou a uma intensa polarização”.

As redes sociais, ele lembra, “apenas amplificaram” a polarização “ao facilitar a disseminação da desinformação, dos rumores, de ‘maria-vai-com-as-outras’ e dos discursos de ódio. O ambiente estava puramente tóxico. Meu mundo online tornou-se um campo de batalha cheio de pessoas que desestabilizam discussões, repleto de mentiras e discursos de ódio”.

Difamação. Partidários do Exército e radicais islâmicos usaram redes sociais para difamar uns aos outros enquanto o centro democrático, que Ghonim e muitos outros ocupavam, era marginalizado. Sua revolução foi roubada pela Irmandade Muçulmana e, quando esta fracassou, pelo Exército, que então deteve muitos dos jovens seculares que primeiro levaram sua energia às ruas. O Exército tinha a própria página no Facebook para se defender.

“Foi um momento de derrota”, disse Ghonim. “Eu permaneci em silêncio por mais de dois anos e usei esse tempo para refletir sobre tudo o que aconteceu.”

Eis o que ele concluiu sobre as redes sociais: “Primeiro, não sabemos como lidar com rumores. Boatos que confirmam os preconceitos das pessoas agora recebem crédito e são disseminados em meio a milhões de pessoas”. Segundo, “tendemos a nos comunicar somente com pessoas com as quais concordamos e, graças às redes sociais, podemos nos calar, deixar de seguir e bloquear todas as demais. Em terceiro lugar, discussões online rapidamente originam multidões enfurecidas. É como se esquecêssemos de que as pessoas por trás das telas são realmente pessoas de verdade”.

“Em quarto lugar, tornou-se realmente muito difícil mudar nossas opiniões. Em razão da velocidade e da concisão das redes sociais, somos forçados a apressar conclusões e escrever opiniões afiadas em 140 caracteres sobre complexos temas mundiais. E assim que publicamos algo, a opinião vive eternamente.”

Em quinto lugar – algo que, segundo ele, é a questão mais crucial –, “atualmente, nossas experiências nas redes sociais são projetadas de tal forma que beneficiam a publicação em detrimento dos compromissos, os posts em relação às discussões, comentários rasos em vez de conversas profundas. É como se concordássemos que estamos aqui para falar para cada um, em vez de falar com cada um.”

Aproximação. Mas Ghonim não desistiu. Ele e alguns poucos amigos recentemente abriram um site, o Parlio.com, para publicar conversas inteligentes e civilizadas sobre questões controvertidas e geralmente quentes, com o objetivo de estreitar distâncias e não alargá-las – eu participei de um debate no Parlio e o considerei envolvente e substancial.

“Cinco anos atrás”, concluiu Ghonin, “eu disse ‘se você quer libertar a sociedade, tudo de que precisa é a internet’. Hoje, acredito que se quisermos libertar a sociedade, precisamos primeiro libertar a internet.” / TRADUÇÃO DE PRISCILA ARONE

*THOMAS FRIEDMAN É COLUNISTA

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