WikiLeaks detalha abusos no Iraque

Grupo põe no ar quase 400 mil arquivos com informações sobre tortura, assassinatos de civis e falhas de investigações por parte das forças americanas no conflito iraquiano; governo dos EUA acusa site de pôr em risco vida de soldados e informantes

Gustavo Chacra, O Estado de S.Paulo

23 de outubro de 2010 | 00h00

Informações detalhadas sobre como o Irã armou e financiou milícias xiitas iraquianas, quantos civis morreram desde 2004 e de que forma prisioneiros eram sistematicamente torturados no Iraque foram reveladas ontem pela organização independente WikiLeaks. Ao todo, 391.832 documentos secretos narram os bastidores das operações militares dos EUA no Iraque.

Segundo as informações divulgadas ontem, pelo menos 109 mil iraquianos morreram na guerra - cifra muito superior à estimada pelo governo americano, que teria maquiado provas para reduzir o número de mortos. Os documentos compilados cobrem o período de janeiro de 2004 a dezembro de 2009.

O WikiLeaks já havia vazado informações secretas sobre o Afeganistão em julho (mais informações na página A26). Autoridades americanas e da Otan voltaram a criticar duramente a ação do grupo. "Tenho a firme convicção de que devemos condenar nos termos mais claros a difusão de qualquer informação, por parte de indivíduos ou organizações, que coloque em perigo a vida de soldados ou civis dos EUA e de seus aliados", atacou a secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton.

"Nós queremos maximizar o impacto", escreveu Julian Assange, o polêmico fundador do site, em mensagem no Twitter, depois de pedir às pessoas que acompanhassem uma série de veículos de comunicação, incluindo a BBC, CNN e Al-Jazira.

O WikiLeaks planejava divulgar as informações hoje pela manhã, mas a Al-Jazira "vazou" parte do conteúdo na tarde de ontem. Jornais como The New York Times, The Guardian e Le Monde, além da revista alemã Der Spiegel, também tiveram acesso aos documentos.

Analistas eram unânimes em dizer ontem que os documentos podem, de fato, colocar a vida de informantes americanos em risco e acentuar ainda mais as divisões na política iraquiana. Também é possível que autoridades militares e civis americanas sejam envolvidas em escândalos.

O material revelado ontem narra, com detalhes, abusos sofridos por prisioneiros iraquianos em prisões americanas, especialmente no infame centro de detenção de Abu Ghraib. Mais ainda, os documentos demonstram como autoridades americanas deliberadamente ignoraram atrocidades cometidas pelas forças iraquianas em várias prisões do país.

Outro ponto polêmico é o papel desempenhado pelo Irã na guerra. Ainda segundo as informações reveladas ontem, o governo de Teerã estaria ativamente engajado em atividades contra forças americanas e, em alguns momentos, iranianos teriam diretamente atacado soldados dos EUA.

O papel de organizações privadas de segurança na guerra também é exposto de modo inédito nos documentos. Soldados "terceirizados" teriam assumido funções tradicionalmente desempenhadas por militares.

Segundo o coronel Dave Lapan, porta-voz do Pentágono, os EUA prepararam-se "para todas as eventualidades", após o vazamento das informações.

Cerca de 120 analistas de Defesa do governo americano devem agora ler o conteúdo dos documentos.

Assange, do WikiLeaks, diz não saber quem vazou documentos para o site. Sem uma residência fixa, o fundador da organização, envolvido em uma série de polêmicas pessoais, tem recebido críticas de antigos parceiros por seus métodos de trabalho. Segundo ele, "as pessoas têm o direito a saber sobre o que ocorre nestas guerras".

PARA LEMBRAR

Em julho, site exibiu dados de conflito afegão

No fim de julho, o site Wikileaks vazou informações de quase 90 mil arquivos internos referentes a operações militares realizadas durante a guerra no Afeganistão. O vazamento foi numericamente o maior na história dos conflitos mundiais. Descrevia praticamente passo a passo e com detalhes os bastidores da atuação das forças de coalizão no conflito no país. Pouco depois, diários completos de inúmeras operações foram reproduzidos por diversos veículos de comunicação. Todo o material ficou à disposição para quem quisesse baixá-los.

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