Morteza Nikoubazl/Reuters-22/9/2007
Morteza Nikoubazl/Reuters-22/9/2007

WikiLeaks expõe choque entre ala conservadora do Irã e Ahmadinejad

Despachos diplomáticos americanos revelados por site descrevem agressão do chefe da Guarda Revolucionária ao presidente iraniano durante reunião sobre protestos estudantis desencadeados pelas suspeitas de fraude nas eleições de junho de 2009

Andrei Netto, O Estado de S.Paulo

31 de dezembro de 2010 | 00h00

A discussão sobre o resultado da eleição presidencial iraniana vencida por Mahmoud Ahmadinejad, em junho de 2009, não foi, ao contrário do que sugeriu o governo brasileiro na época, apenas uma disputa entre governo e oposição. Até entre os conservadores iranianos, mais próximos do clero, houve divergência sobre a repressão à "Revolução Verde" promovida por estudantes nas ruas de Teerã.

Em uma reunião sobre o tema, Ahmadinejad teria sido agredido pelo chefe da Guarda Revolucionária, Mohammed Ali Jafari, que ficou indignado com a instabilidade política no país. As informações constam em documentos diplomáticos dos EUA revelados pelo WikiLeaks ao longo dos últimos 32 dias.

Membro da ala mais conservadora do governo - à qual o presidente também pertence -, Jafari teria reclamado da "bagunça" após as eleições em uma reunião do Conselho Nacional de Segurança realizada em fevereiro de 2010, sete meses após a eleição presidencial.

No encontro, Ahmadinejad teria argumentado que, para controlar a revolta estudantil, seria necessário aumentar o grau de liberdades individuais e sociais, diminuindo até mesmo o controle sobre a imprensa no país - uma forma de reduzir a pressão oposicionista e da comunidade internacional. Jafari teria reagido com dureza, reprovando a proposta do presidente, segundo fonte anônima do Departamento de Estado americano.

"Você está errado! Foi você quem criou a bagunça e agora está pedindo mais liberdade de imprensa?", teria dito Jafari, desferindo então um tapa no rosto de Ahmadinejad. A bofetada teria interrompido o encontro.

Só com a interferência do aiatolá Ahmad Janati, membro do Conselho dos Guardiães, o presidente e Jafari teriam retornado à mesa de debates. O telegrama, intitulado Aquele que foi esbofeteado, foi redigido por diplomatas americanos em Baku, no Azerbaijão, com informações de um "observador" iraniano.

Preocupação. O episódio confirmaria os rumores de que a eleição de 2009 provocou divergências internas na ala conservadora do governo. Jafari é o representante máximo da guarda, uma instituição criada logo após a Revolução Islâmica de 1979.

Em outros despachos, a diplomacia americana busca relatos sobre a situação política do Irã logo após a reeleição de Ahmadinejad. Em um deles, de 15 de julho de 2009, uma fonte da Embaixada Americana em Asgabate, no Turcomenistão, descreve a votação como um "golpe de Estado" e o presidente, como "um novo Augusto Pinochet".

Os Estados Unidos se mostram desapontados com a falta de reação dos países árabes à eleição. Em 24 de junho de 2009, o governo americano mostrou-se atento à possível intervenção do clero mais progressista do Irã contra o aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do país.

Os documentos demonstram que Washington acompanhou regularmente as chances do movimento oposicionista no Irã. Em 12 de janeiro de 2010, a oposição foi considerada pelos diplomatas americanos em Dubai como um grupo que buscava a manutenção de seus direitos políticos mínimos, e não mais a destituição do presidente e a realização de novas eleições.

No dia seguinte, outro despacho secreto definia os manifestantes "mais como um problema persistente do que como uma ameaça real" ao governo de Ahmadinejad.

PARA LEMBRAR

Após eleição, Lula apoiou líder iraniano

Três dias após a eleição presidencial no Irã e do início dos distúrbios em Teerã, que contestavam o resultado da votação, o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, fez declarações em favor de Mahmoud Ahmadinejad, então acusado de fraudar o resultado das urnas.

Segundo Lula, o porcentual de 61,62% dos votos supostamente obtidos pelo presidente iraniano seriam a prova de que não haveria problemas na contagem. Lula foi além, ignorando a pressão internacional por mais transparência na eleição. "Eu não conheço ninguém, a não ser a oposição, que tenha discordado da eleição do Irã. Não tem número, não tem prova", afirmou o presidente brasileiro.

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