WikiLeaks: Vaticano recusou cooperação em inquérito sobre abusos

Comissão irlandesa pediu testemunho de clérigos, mas governo concedeu imunidade aos religiosos

estadão.com.br

11 de dezembro de 2010 | 10h51

LONDRES - O Vaticano proibiu seus oficiais de testemunhar ante uma comissão irlandesa que investigava abusos sexuais cometidos por padres e mostrou irritação quando esses religiosos foram convocados para depor em Roma, revelam documentos diplomáticos divulgados pelo site WikiLeaks neste sábado, 11, segundo informações do jornal britânico The Guardian.

 

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Segundo o relatório, intitulado "Escândalos de abusos sexuais prejudicam relações Irlanda-Vaticano, estremecem Igreja irlandesa e se mostram desafio para a Santa Sé", afirma que "várias pessoas do Vaticano ficara ofendidas" e sentiram que Dublin "falhou ao respeitar e proteger a soberania do Vaticano durante as investigações" com a convocação de clérigos para depor.

 

O documento cita o embaixador irlandês no Vaticano, Noel Fahey, como dizendo a diplomatas americanos que a crise dos abusos cometidos por padres irlandeses era a pior com a qual ele já havia lidado. Segundo ele, o governo de Dublin queria ser visto como "cooperador com as investigações", já que seu próprio sistema de educação estava envolvido, mas políticos se sentiam intimidados em pedir a colaboração do Vaticano.

 

Ainda de acordo com o relatório, o governo irlandês, porém, cedeu às pressões do Vaticano e concedeu imunidade aos acusados. Diplomatas irlandeses tentaram convencer o Vaticano de que "ignorar os pedidos da comissão só tornariam as coisas piores", mas só em 2009 a Santa Sé se posicionou sobre os casos.

 

Apesar da falta de colaboração do Vaticano, a comissão prosseguiu com as investigações e descobriu que vários padres tentaram encobrir os casos de abuso, colocando os interesses da Igreja acima das vítimas. Segundo a comissão, 320 pessoas denunciaram abusos entre 1975 e 2004 só na arquidiocese de Dublin.

 

As denúncias desataram uma profunda crise na Igreja Católica. Protestos foram realizados em vários países para pedir a renúncia do papa Bento XVI e vários bispos e cardeais deixaram seus cargos. Posteriormente, o pontífice pediu desculpas pelos abusos e prometeu mudanças na Igreja.

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