Workaholic, Sonia é produto da meritocracia

Senadores que participaram das audiências de confirmação da juíza Sonia Sotomayor relataram na segunda-feira a história que os funcionários públicos costumam relatar nessas ocasiões. Uma história de direitos civis, que envolve uma jovem pertencente a uma minoria, que supera obstáculos, luta contra a discriminação e realiza o sonho americano; uma história verdadeira e impressionante que as pessoas gostam de ouvir. Leia mais sobre a juíza hispânica Sonia Sotomayor no portalE, no entanto, o perfil biográfico da juíza conta uma história um tanto diferente e mais complexa. É uma história de mobilidade vertical - de uma pessoa que trabalhou duramente e contribui de maneira profunda para a sociedade, mas que também sacrificou muitas coisas em sua carreira. A leitura de seu perfil permite quase visualizar o mapa de seus relacionamentos em cada estágio da vida. Em alguns pontos, seus relacionamentos são densos e abrangentes, mas em outros, há espaços em branco. Seu pai morreu quando ela tinha 9 anos, deixando um desses espaços em branco. Depois da morte do pai, a avó e as tias paternas fizeram uma reunião de emergência com a mãe. Preocupadas com a predileção da menina pelas histórias em quadrinhos de Gasparzinho e Riquinho, temiam que essas leituras a distraíssem dos estudos. Quando chegou à Universidade Princeton, Sonia sentiu-se como um "visitante aterrissando num país estrangeiro". Então, ganhou fama de trabalhadora fanática, que vivia de cigarros e cafeína. Entretanto, tinha também a impressionante capacidade de atrair e impressionar eventuais mentores. Sua ascensão não foi uma marcha independente contra o establishment. Ao contrário, em cada fase, seus talentos foram notados por membros dos altos escalões - um famoso professor de direito, um procurador de Estado conhecido, o sócio de um escritório de advocacia da elite. Para subir, ela recebeu apoio e orientação. "Parecia se dar bem com todo mundo", disse um colega do curso de direito, ao Yale Daily News. Adulta, o perfil biográfico a descreve como uma pessoa otimista e sociável, que promovia caminhadas e festinhas. Entretanto, foi sempre bastante honesta em relação ao custo que sua condição de workaholic representou para ela. Seu casamento acabou depois de dois anos. Ela teria afirmado: "Não posso atribuir o divórcio ao trabalho, mas certamente o fato de eu sair de casa às 7 horas e voltar às 22 horas não foi de muita ajuda para resolver os problemas no meu casamento". Em seguida, teve um namoro de oito anos e seus biógrafos descrevem sua vida como freneticamente agitada, embora muitas vezes arredia. "É preciso marcar encontros com ela com meses e meses de antecedência por causa de sua agenda", disse uma amiga ao The Times. Essa não é a velha história da mulher dedicada à sua carreira que tenta encontrar um equilíbrio entre trabalho e família. É a história das pressões que afetam tanto os homens quanto as mulheres. É a história de pessoas numa meritocracia que se torna mais depurada e competitiva ano após ano, com exigências cada vez maiores e mais insistentes em relação ao tempo. Esse perfil permite um vislumbre autêntico de um estilo de vida que não foi captado por um romance ou por um filme. Em seu perfil, vemos a atração intoxicante do trabalho, que oferece um propósito de organização e uma identidade. Vemos as tensões de um establishment multicultural, em que as pessoas procuram preservar seu patrimônio étnico quando ascendem e ingressam na elite. Vemos que as pessoas não só escolhem uma profissão, como ela as escolhe. Transforma-as de uma maneira que provavelmente elas não poderiam imaginar. Minha impressão é que os juízes sentem mais agudamente essas tensões entre seus papéis sociais e sua vida social do que qualquer outra pessoa. Muitas vezes são pessoas extrovertidas que, por causa de seu trabalho, não podem manter relações muito estreitas com os advogados e outros que compartilham de seus interesses mais profundos. Mas a vida da juíza coincide também com uma classe mais ampla de grandes realizadores. Nesse patamar, as pessoas não atingem sucesso sem desenvolver um único objetivo, e lutar contra suas consequências. * David Brooks é analista político

David Brooks * , THE NEW YORK TIMES, O Estadao de S.Paulo

15 de julho de 2009 | 00h00

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