Xenofobia aumenta na UE, indicam relatórios

Denúncias de violência racial cresceram em pelo menos 8 países do bloco desde os atentados do 11/9 e do início da guerra ao terror

Andrei Netto, PARIS, O Estadao de S.Paulo

13 de fevereiro de 2009 | 00h00

O número de denúncias de violência racial teve um elevado aumento em pelo menos oito países da União Europeia desde os atentados do 11 de Setembro e o início da guerra ao terror. A constatação foi feita por duas juntas de Direitos Humanos, em Viena e Estrasburgo, que analisaram 11 países. De acordo com os relatórios, os crimes antissemitas cresceram na Grã-Bretanha e na França; outras manifestações de violência de extrema direita são cada vez mais frequentes na Alemanha.Os documentos confirmam que casos como o da advogada brasileira Paula Oliveira, agredida na segunda-feira, na Suíça, não são uma exceção, mas parte de uma avalanche de denúncias de xenofobia na Europa após 2000. O documento mais importante foi produzido pela Agência de Direitos Fundamentais da UE, com sede em Viena. Segundo o levantamento, com dados atualizados até 2006, o número de denúncias, investigações ou crimes raciais confirmados aumentou na Dinamarca, Finlândia, Alemanha, Áustria, Irlanda, Grã-Bretanha, França e Eslováquia. Dentre os países que forneceram estatísticas, as agressões só se mantiveram estáveis ou se tornaram menos frequentes na Suécia, Polônia e República Checa.O campeão de casos é a Alemanha, com 18.100 crimes cometidos em 2006 - uma alta de 5,3% na década. Mas, porcentualmente, quem enfrenta o maior aumento de atos de xenofobia é a Dinamarca - país que acolhe grande número de novos imigrantes. Os incidentes tornaram-se 59,1% mais comuns entre 2000 e 2006. Entre as nações mais populosas do bloco, a França - com 27,7% de aumento de incidentes - e a Grã-Bretanha, com 27,3%, também foram destaques negativos. A agência esclarece que a comparação entre os países não é apropriada, pois os métodos de contabilização são diferentes.Itália e Espanha não foram incluídos no levantamento, mas ambos os países vêm tornando mais rígidas suas política anti-imigrantes. Em Roma, o Senado aprovou um pacote que, entre outras medidas, estimula médicos a delatar pacientes que estejam ilegalmente no país. Na Espanha, o governo se oferece para pagar a passagem de quem quiser retornar a seu país de origem.O segundo documento sobre a escalada da xenofobia, publicado pela Comissão Europeia contra o Racismo e a Intolerância, indica que há um "clima de hostilidade" em relação às minorias. "O conjunto das formas contemporâneas de racismo e de discriminação racial é complexo e inquietante", diz o relatório. "Fenômenos virulentos de racismo e de intolerância podem ser observados em todos os países membros."A Comissão Europeia alerta que a "falta de vontade política" dos governos vem prejudicando a condenação dos acusados. Imigrantes como Paula Oliveira, refugiados e asilados são "particularmente atingidos", afirma o texto. O relatório conclui que o agravamento da violência racial na Europa tem relação com a luta contra o terrorismo, que "estigmatiza comunidades, em especial de estrangeiros". Segundo o cientista político Jean-Yves Camus, do Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas e estudioso do movimento skinhead, as regiões de fronteira entre Alemanha, Áustria e a Suíça alemã - onde se localiza Zurique - reúnem a maior concentração de militantes extremistas violentos da Europa Ocidental. "Na parte alemã da Suíça atuam grupos de violência xenófoba com até 800 pessoas", afirma. "Ainda são casos isolados, mas recorrentes."

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