AP/Matthias Schrader
AP/Matthias Schrader

‘Xenofobia está em cada esquina’, diz especialista europeu

Para cientista social que vive na Hungria, anos de campanha antiterror influenciam rejeição a imigrantes no continente

Roberta Pennafort / RIO, O Estado de S. Paulo

16 Setembro 2015 | 20h08

A Europa não pode tolerar violações aos direitos humanos durante a crise migratória provocada pela guerra civil na Síria, sob a ameaça de abrir “precedentes arriscados”. O alerta é do analista Goran Budioski, cientista social macedônio residente na Hungria que vem acompanhando de perto a chegada de milhares de sírios ao país e participou ontem no Rio de debate sobre o tema.

Ele defende que a fuga em massa para países europeus – foram cerca de 438 mil pedidos de asilo a Alemanha e Hungria este ano – não seja vista com lente de aumento, pois o alarmismo “gera mais medo do que solidariedade”.

“É claro que cada vida é importante. O problema é dizer que essa é a maior crise de refugiados desde a 2.ª Guerra. Isso aumenta o medo entre os europeus, o que é contraproducente. Há europeus solidários, mas a maioria não apoia a vinda dos migrantes. São 500 milhões de cidadãos europeus e 500 mil asilados, 0,1% da população de um continente rico, não era para ser tão dramático”, disse Budioski, diretor da organização Open Society Initiative for Europe.

Ele lembrou que o primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, teve grande aumento de popularidade desde que adotou linha dura contra os refugiados.

“O projeto europeu está em crise. Em todas as esquinas há discursos xenófobos, e isso é influenciado por anos de campanhas antiterrorismo. A Europa tem de fazer jus a seus valores em defesa dos direitos humanos, caso contrário, abrem-se precedentes arriscados. O continente tem a melhor legislação de proteção aos direitos humanos, mas não é fácil operar isso levando-se em conta os 28 Estados-membros, pois todos têm suas dinâmicas domésticas.”

Na avaliação do especialista, “Hungria, Eslovênia, Polônia e Países Bálticos nunca lidaram com questões migratórias, não sabem o que fazer com as pessoas, se lhes dão ou não visto de trabalho e não sabem como lidar com a própria população”. “Essas pessoas têm de ser aceitas e integradas. Elas não podem continuar sendo vistas como ameaça.”

A húngara Petra Reszketõ, do Budapest Institute, considera que a Hungria poderia se beneficiar economicamente da onda migratória, uma vez que o país tem sido visto como corredor preferencial para quem saiu da Síria a fim de refazer a vida em países do norte da Europa.

Qualificação. “Não se pensa no longo prazo. O melhor seria selecionar as pessoas, pois há gente qualificada, que poderia ajudar a desenvolver o sistema produtivo e a economia. Mas o país não está preparado, mesmo se houvesse mais tolerância do governo, a Hungria estaria em risco de toda maneira”, observa a pesquisadora, também convidada do Centro Brasileiro de Relações Internacionais, que promoveu o debate. 

A eslovaca Radka Vicenová, outra participante, afirmou que ainda que seu país, fronteiriço com a Hungria, tenha recebido apenas 150 pedidos de asilo este ano, a população se sente em perigo.

“Uma pesquisa mostrou que 60% dos cidadãos acham que a vinda de imigrantes atrapalha suas vidas. Numa localidade em que há um campo de refugiados usado na época do conflito na Iugoslávia, os moradores se posicionaram contra a possibilidade de receber refugiados. Parte da população vê os imigrantes como terroristas. A situação é alarmante.”

“A Europa precisa de dois milhões de pessoas nos próximos 35 anos para compensar o envelhecimento da população, mas é muito mais fácil alocar imigrantes numa situação tranquila do que nesse momento. A sensação é de que os europeus já se esqueceram o que é estar numa guerra, porque os conflitos na Iugoslávia e no Kosovo, nos anos 90, não afetou tanto as suas vidas. As pessoas se perguntam ‘por que os sírios não ficam onde estão?’, não lembram o que é perder tudo e precisar fugir”, disse Budioski.

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