Xenofobia na África do Sul

Onda de violência abala o país, onde os negros pobres se revoltam contra imigrantes

DANIEL MAGAZINER , SEAN JACOBS, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

25 de abril de 2015 | 02h01

Pela terceira vez em sete anos, surgiu uma onda de violência contra imigrantes na África do Sul. As perseguições, que começaram no final de março em Durban, na Província de KwaZulu-Natal, espalharam -se agora para Johannesburgo.

Desde o fim do apartheid, em 1994, aproximadamente 5 milhões de imigrantes se estabeleceram na África do Sul; a maioria africanos do norte em busca de oportunidades econômicas ou refugiados em busca da estabilidade política do país mais desenvolvido do continente.

Os sul-africanos negros, a maioria dos quais permanece pobre e marginalizada na era pós-apartheid, observaram ressabiados, durante anos, enquanto imigrantes de Malawi, Somália, Etiópia, Zimbábue, Nigéria e Moçambique começaram a montar pequenas empresas e aproveitar as oportunidades na África do Sul. Agora, as lojas desses imigrantes estão sendo queimadas e seus proprietários mortos.

O mais recente caso de violência parece ter sido provocado por observações depreciativas do rei zulu, Goodwill Zwelithini, que pediu aos estrangeiros que deixem o país, insinuando que eles são "piolhos" ou "formigas". Depois disso, o rei já fez um meio pedido de desculpas, dizendo que suas declarações foram tiradas de contexto.

Duas décadas depois de sua transição para a democracia, a África do Sul vive um período de incerteza, O partido governista Congresso Nacional Africano tentou e não conseguiu desfazer o legado de séculos de domínio da minoria branca. Muitas de suas promessas não cumpridas são resultado da transição negociada do país no início dos anos 90, que viu o CNA e outros movimentos de libertação abandonarem suas exigências mais radicais de transformação econômica e racial em nome de estabilidade e acordo.

A recente eclosão de violência xenófoba é uma consequência direta desses acordos. Rotulado como "transição milagrosa", o início dos anos 90 foram, na verdade, um período de extrema violência em KwaZulu-Natal e em torno de Johannesburgo. A agitação foi alimentada, em parte, pelos esforços do governo do apartheid para se sustentar promovendo rivalidades entre autoridades tribais e os nacionalistas filiados ao CNA de Nelson Mandela.

O país foi assolado por conflitos étnicos e regionais, emanando da minoria branca e de várias pátrias etnicamente definidas que o governo do apartheid havia criado. O rei Zwelithini foi o líder simbólico da mais forte destas, representando quase 10 milhões de zulus, o maior grupo étnico da África do Sul. O tipo de chauvinismo étnico do rei encontrou eco, particularmente, entre os jovens e pobres. Juntamente com o ministro-chefe de KwaZulu, Mangosuthu Buthelezi, e o Partido da Liberdade Inkatha, ele ameaçou sabotar a histórica eleição de 1994. Um dos triunfos do CNA foi cooptar esses líderes nacionalistas para a nova África do Sul sem exigir que abrissem mão de seu chauvinismo zulu.

Líderes tradicionais como o rei Kwalithini foram colocados na folha de pagamento do Estado como parte de um grupo chamado de Congresso de Líderes Tradicionais da África do Sul. Isso lhes deu uma nova legitimidade e acabou trazendo Kwazulu-Natal para o redil do CNA, mas com um custo. Deu legitimidade a uma forma de política etnonacionalista à qual o CNA havia se oposto durante a luta antiapartheid.

O etnonacionalismo que marcou os dias de agonia do apartheid agora se transformou num "nativismo" maligno que coloca em risco a democracia pós-apartheid.

O presidente Jacob Zuma não fez muita coisa para enfrentar a crise. Se quiser oferecer soluções concretas, faria bem em olhar para um dos capítulos mais célebres da história de seu partido. Em 1955, vários grupos, liderados pelo CNA, adotaram a Carta da Liberdade, que declarava: "A África do Sul pertence a todos que nela vivem". A primeira Constituição pós-apartheid, em 1996, consagrou a promessa de que o país pertencia a todos. Mas os últimos dias mostraram que há limites para a promessa.

Para muitos negros pobres, o rótulo "sul-africano" e o direito correlato de ser representado por um governo democrático são a única recompensa de longas décadas de luta. A condenação mais forte da violência veio da ex-mulher de Zuma, Nkosazana Dlamini-Zuma. Uma zulu e veterana do CNA, ela tem sido inequívoca na defensa de que a diversidade é a maior força da África do Sul, e assim deve permanecer.

No momento em que o país se prepara para nova rodada de eleições locais, seus cidadãos deveriam prestar atenção às palavras de Dlamini-Zuma para que, um dia, o país possa realmente pertencer aos que nele vivem. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

SÃO PROFESSORES EM YALE E THE NEW SCHOOL, RESPECTIVAMENTE

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