Xenofobia rende votos e seduz partidos

Além da extrema direita, legendas moderadas também abusam do discurso que culpa os imigrantes pelos efeitos da crise

, O Estado de S.Paulo

22 de agosto de 2010 | 00h00

As Nações Unidas e diversas ONGs têm alertado que o discurso anti-imigração usado por governos europeus está fortalecendo o sentimento xenófobo em toda a região. O pior é que o argumento de que os estrangeiros representam um risco não está ocorrendo apenas entre partidos de direita, mas também por grupos de centro-esquerda que não querem perder votos. Na França, nem mesmo o Partido Socialista, que tradicionalmente critica as políticas migratórias de direita, se atreveu nos últimos dias a atacar a proposta do governo de deportar ciganos, temendo perder votos.

Desde quinta-feira, o governo de Nicolas Sarkozy vem intensificando sua política de enviar para a Romênia e Bulgária os ciganos que estejam de forma irregular na França. Apesar das críticas recebidas, membros do governo se apressam em tentar justificar a medida como mais uma ação ação para lidar com a criminalidade.

Charles Givadinovitch, presidente da juventude do UMP, partido governista, alerta que 40% dos 15 mil ciganos na França tem ficha na polícia e, portanto, a questão também é de segurança. Mas para a entidade Romeuropa, que se ocupa dos direitos dos ciganos, a taxa de delinquência não seria tão alta se o acesso a postos de trabalho e educação fosse garantido em todo o continente. Para a Anistia Internacional, a Europa hoje vive uma "instrumentalização perigosa" dos estrangeiros por parte de políticos.

Em vários locais da Europa, a estratégia dos partidos tem sido a de relacionar a crise vivida pela sociedade, seja em termos econômicos como na questão da segurança, com a chegada de estrangeiros ao continente. Na Suíça, o Partido do Povo Suíço ganhou notoriedade nos últimos dez anos abusando da questão migratória. Martelou por anos que 70% dos prisioneiros no país são de nacionalidades outras que a Suíça e, na prisão de Genebra, 55% dos prisioneiros são muçulmanos. Para o partido, quem paga por isso é o contribuinte.

"Há uma incitação ao ódio e países estão se confrontando a uma intensificação do racismo e xenofobia", afirmou Kokou Ewomsan, perito da ONU para Discriminação. Para o americano Pierre Prosper, o que falta na Europa é uma "real vontade política de enfrentar a situação de fundo, que é a integração dessa população".

"O que está sendo feito é o uso do medo e da angústia como arma eleitoral", afirmou um dos principais nomes do Partido Verde Europeu, Daniel Cohn Bendit.

Na Grã-Bretanha - onde estima-se que trabalhem 3,8 milhões de estrangeiros - , a entidade Migration Watch. ligada aos partidos de direita, publicou um estudo mostrando que a imigração prejudica o mercado, já que os 50 municípios com maior taxa de desemprego são também os que têm maior taxa de imigração. "Isso demonstra que a política de portas abertas da última década teve um efeito nefasto para nossos padrões de vida", disse Sir Andrew Green, presidente da entidade.

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