REUTERS/Carlos Barria
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Xi recebe Trump e tenta ocupar vácuo deixado por novo governo dos EUA

Presidente americano prepara tour pela Ásia, no qual a ameaça norte-coreana será tema central; titular da Casa Branca pedirá acesso mais fácil ao mercado chinês ao encontrar líder comunista, que se apresenta como defensor da globalização

Cláudia Trevisan, Correspondente / Washington, O Estado de S.Paulo

29 Outubro 2017 | 05h00

WASHINGTON - Com a intenção declarada de transformar seu país na maior potência global até a metade do século, Xi Jinping receberá Donald Trump em Pequim na próxima semana em uma posição de força sem paralelo nos últimos 40 anos. Diante dele, estará um líder que é questionado por integrantes de seu próprio partido e visto como um defensor imperfeito dos valores democráticos ocidentais aos quais Pequim se opõe.

Artigo: Uma estranha visão de mundo

concentração de poder nas mãos de Xi é acompanhada do aumento da repressão e da dramática redução do espaço para dissidência na China, tendência que deve se acentuar nos seus próximos cinco anos de governo. Em seu discurso no congresso do Partido Comunista, na semana passada, Xi disse que a organização deverá moldar todos os aspectos da sociedade chinesa. “Governo, Exército, sociedade, escolas, norte, sul, leste e oeste - o Partido lidera todos.”

Trump chegará à China no dia 8 com duas demandas: aumento da pressão de Pequim para que a Coreia do Norte abandone seu programa nuclear e eliminação de restrições à atuação de empresas americanas no país. O republicano acredita que o principal aliado de Pyongyang tem a chave para mudar o comportamento de Kim Jong-un.

David Shambaugh, professor da Universidade George Washington e um dos principais especialistas em China dos EUA, diz que Pequim pode fazer mais para influenciar o país vizinho, mas dentro de certos limites. “Eles não estão dispostos a forçar Pyongyang a uma situação de submissão.”

Em sua posição de força, Xi expressa aspirações globais inéditas para um líder comunista chinês. No congresso do PC, ele apresentou a China como um modelo para países em desenvolvimento. Nos meses anteriores, tentou se posicionar como líder da globalização e defensor de aspectos da ordem mundial criada pelos EUA depois da 2.ª Guerra.

O esforço de relações públicas foi facilitado pela vitória de Trump e pela crise em democracias ocidentais, evidenciada na emergência de partidos ultranacionalistas. Sob o slogan “América em Primeiro Lugar”, Trump mina alianças tradicionais dos EUA e ataca as organizações multilaterais que garantiram a primazia global americana nos últimos 70 anos.

“Trump está ajudando a tornar a China grande de novo”, avalia Arthur Kroeber, da consultoria Gavekal Dragonomics, parodiando o slogan de campanha do republicano. Assim que chegou à Casa Branca, o presidente retirou os EUA da Parceria Transpacífico (TPP), acordo que fortaleceria os laços econômicos com a região e isolaria a China.

Shambaugh afirmou que Trump diminuiu “de maneira dramática” a estatura e a influência dos EUA no mundo. “Isso deixa um vácuo geoestratégico que a China ocupa até certo ponto”, observou. “Os EUA deram um passo atrás em vários aspectos da liderança global, como a saída da Unesco, do Acordo de Paris e do TPP”, afirma Elizabeth Economy, diretora de Estudos Asiáticos do Council on Foreign Relations.

Pesquisa do Pew Research mostra que Xi tem uma imagem mais positiva que a de Trump, ainda que a percepção sobre ambos seja ruim. Segundo o levantamento, 28% dos entrevistados disseram ter confiança em que o líder chinês conduzirá de maneira adequada questões globais. Trump obteve 22% no mesmo quesito.

O porcentual dos que declaram não ter confiança no presidente dos EUA passou de 23%, no fim do governo Barack Obama, para 74% depois da posse de Trump. Ao mesmo tempo, a visão favorável do país caiu de 64% para 49%, apenas um ponto porcentual acima do índice obtido pela China.

Assim como Trump é um representante imperfeito de valores democráticos ocidentais, Xi é um candidato problemático ao cargo de líder mundial. “No Fórum Econômico Mundial de Davos, Xi Jinping reivindicou a liderança na defesa da globalização, mas a China não permite o livre fluxo de capital nem de informação. Você não pode ser defensor da globalização se não a pratica”, afirma Economy.

Segundo ela, há um grande nervosismo na Ásia em relação à crescente influência da China e à aparente retração dos EUA. As visões mais negativas em relação a Pequim na pesquisa do Pew Research são registradas na região. No Vietnã, 84% dos entrevistados têm uma visão favorável dos EUA e apenas 10% expressam a mesma opinião em relação à China. Nas Filipinas, os índices são de 78% e 55%, na Coreia do Sul, de 75% a 34% e no Japão, de 57% a 13%, todos em favor dos americanos.

Kroeber observa que os EUA estruturaram sua influência mundial com uma rede que incluiu a maioria das grandes economias e as organizações multilaterais criadas no pós-guerra. “A China não tem aliados, enquanto os EUA têm um sistema de alianças forte. A China é um país isolado e parece querer se manter assim, o que limita seu poder.”

Mas Trump tem atacado alianças americanas e a ordem democrática liberal que a sustenta.  Em sua estreia na ONU, em setembro, ele defendeu a primazia do Estado nacional em detrimento de acordos multilaterais. “Em vez de reconhecer a importância das alianças, Trump as está destruindo”, ressaltou Kroeber. “Se cada nação individual se torna uma ilha, a China é a maior ilha e se tornará a mais poderosa.”

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