EFE/EPA/MURTAJA LATEEF
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Xiitas querem fim da elite política de Bagdá

Sistema chegou ao poder após queda de Saddam Hussein com apoio dos mesmos xiitas que agora protestam nas ruas

Washington Post, O Estado de S.Paulo

30 de dezembro de 2019 | 07h00

NAJAF, IRAQUE - Durante semanas, o centro nevrálgico dos xiitas no Iraque se revoltou abertamente contra o governo central, contestando um sistema que os próprios xiitas apoiaram. E de respaldo confiável da elite de Bagdá eles se transformaram numa voz potencialmente poderosa da oposição.

A maioria muçulmana xiita iraquiana tem sido o sustentáculo da liderança em Bagdá desde a invasão americana que derrubou Saddam Hussein e abriu caminho para o poder político dos xiitas.

As províncias xiitas que se estendem ao longo do sul do Iraque votaram em políticos xiitas e apoiaram os líderes quando estes enfrentaram a insurgência sunita e enviaram milhares de homens para lutar contra o Estado Islâmico. Mas agora os xiitas iraquianos, cansados da pobreza em que vivem, enfurecidos com a corrupção e frustrados, vêm combatendo o sistema que ajudaram a construir.

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Manifestantes antigoverno ocuparam praças e pontes, bloquearam estradas e queimaram ou saquearam prédios governamentais, incluindo missões diplomáticas pertencentes ao Irã xiita, que mantém vínculos estreitos com a liderança iraquiana.

Nas cidades de Najaf e Nasiriyah, ao sul do país, forças de segurança mataram inúmeros manifestantes num único dia, no mês passado - no âmbito dessa rebelião que desde outubro já provocou mais de 500 mortes e forçou o primeiro ministro a renunciar.

Uma demonstração de cólera que, se continuar, poderá virar de cabeça para baixo um sistema instalado desde a invasão americana em 2003 e possivelmente reformular o futuro político do Iraque, cujas minorias árabes sunitas e curtas foram amplamente marginalizadas.

“Durante 16 anos esses partidos xiitas estão no poder e não nos ofereceram nada”, disse Hasanain al-Khasibi, 30 anos, ativista de Basra, centro petrolífero ao sul do Iraque.

Os manifestantes demandam desde uma reforma da lei eleitoral até a abolição dos partidos políticos e o fim da corrupção. O slogan do movimento - “Queremos uma pátria!” sublinha seu profundo sentimento de alienação.

Mas o Estado iraquiano vem reagindo com uma demonstração de força própria.

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A Comissão de Direitos Humanos do Iraque informou que mais de 500 pessoas morreram nos confrontos. Nas últimas semanas pelo menos meia dezena de ativistas foram atacados por pistoleiros mascarados e em ataques à bomba em Bagdá e outras cidades do sul.

Os protestos seguem o refrão dominante: dinheiro, influência e oportunidades nas mãos de alguns seletos.

Segundo os manifestantes as autoridades políticas e comandantes apoiados pelo Irã, incluindo as milícias xiitas que combatem o Estado Islâmico, enriqueceram com um esquema de compartilhamento que sustenta a ordem política e divide os ganhos com as pilhagens entre os partidos no poder.

Ministérios de governo são tratados como feudos, dizem os manifestantes, e muito pouco é oferecido aos cidadãos comuns.

“É por esta razão que estamos protestando contra os mesmos partidos xiitas nos quais votamos”, disse o ativista Khasibi. “Porque eles são ladrões”.

Por todas as províncias ao sul do Iraque - desde as cidades sagradas de Najaf e Karbala até as regiões pobres e pantanosas em Dhi Qar e Maysan, que fazem fronteira com o Irã, estudantes, moradores, clérigos, líderes tribais e mesmo autoridades locais manifestam o mesmo sentimento de traição e indignação.

Depois da invasão do Iraque, os xiitas iraquianos reprimidos pelo regime de Saddam Hussein reapareceram para criar um Estado novo. Reivindicaram sua legitimidade através de eleições e se mobilizaram ante as ameaças de insurgentes sunitas, impelidos pelo seu líder espiritual o aiatolá Ali Sistani.

Mas à medida que a ira pública começava a fermentar através dos anos, por causa dos cortes de energia elétrica, a falta de água potável, o desemprego e a corrupção, os líderes políticos em Bagdá ignoravam as dificuldades da região, mesmo contando com o apoio das províncias xiitas.

“O sul foi muito sacrificado - primeiro sob Saddam Hussein, depois a Al-Qaeda, e em seguida o Estado Islâmico”, disse Nassif Jassim al-Khatabi, governador provincial de Karbala, em uma entrevista em seu gabinete.

Khatabi e sua cidade, que fica cerca de 110 quilômetros ao sul da Bagdá, ampliaram sua influência na conformação da visão xiita. Karbala abriga o santuário de Imam Sussein, uma das figuras mais reverenciadas do islamismo xiita.

“Mas agora eles chegaram a um ponto em que perguntam: ‘por quanto tempo teremos de nos sacrificar enquanto o governo nos ignora?’”, disse Khatabi. Ele disse compreender as demandas dos manifestantes.

Irã

No mês passado, esses manifestantes em Karbala invadiram o consulado iraniano, uma enorme fortaleza com muros altos e barreiras de concreto, e içaram a bandeira iraquiana.

Mais ao sul, em Najaf, centro dos ensinamentos xiitas e santuário do íman Ali, os manifestantes incendiaram o consulado iraniano no mês passado, entoando o lema “Irã, fora”, enquanto saqueavam o edifício.

“Estamos furiosos com o Irã”, disse Yasser Malik, 28 anos, dentista e ativista em Najaf. “Eles são a força propulsora por trás da miséria que vimos sofrendo”.

O Irã, uma teocracia xiita expandiu fortemente sua influência no Iraque, nutrindo seus aliados religiosos e políticos, financiando a mídia local e inundando os mercados iraquianos de importações iranianas baratas.

O mais forte símbolo da autoridade do Irã é a variedade de milícias xiitas poderosas financiadas e equipadas por Teerã.

Os grupos pertencem às Forças de Mobilização Populares, ou Hashd al-Shaabi, uma coalizão cujos membros ajudaram a derrotar o Estado Islâmico. Hoje essas forças administram seu próprio ministério, detêm assentos no Parlamento e controlam setores chave da economia.

Segundo os manifestantes as milícias apoiadas pelo Irã, a Badr Organization, Asaib Ahl al-Haqe e o Hezbolllah de Kata’ib, entre outros, ajudaram as forças de segurança na forte repressão contra os ativistas.

“Essas milícias e seus aliados criaram um Estado dentro do Estado”, disse Jawad al-Khoei, clérigo de Najaf. “Eles aproveitam da ausência de uma real autoridade e usam isto em seu próprio benefício”.

Khoei, que diz apoiar o clamor dos manifestantes por reformas, é muito próximo de Sistani e de outros clérigos que promovem a escola quietista do islamismo xiita, que defende um enfoque não intervencionista para o Estado. Esta tradição contrasta fortemente com a visão dos líderes iranianos, que acreditam no governo clerical.

Economia

A entrada das milícias na economia do Iraque desencadeou uma irritação particular. Os comerciantes e outras pessoas narram histórias não confirmadas de grupos armados exigindo propinas ou divisão dos lucros e fazendo ameaças de morte para aqueles que se recusam.

Numa demonstração do poder das milícias xiitas, o ministro da Construção e Habitação transferiu a propriedade da empresa estatal de construção al-Mutasim para o ministério das Forças de Mobilização Populares, no ano passado. A companhia é responsável por importantes projetos de infraestrutura como construção de estradas e pontes em Najaf e Nasiriyah.

“As milícias estão controlando toda a economia”, disse Raheem Mohammed, líder tribal de Maysan.

“Eles controlam os cruzamentos na fronteira com o Irã, os parques de estacionamento e confiscaram muita terra que pertencia ao governo e depois venderam, para lucrarem”, disse ele. “Ninguém consegue um emprego ou um contrato se não for afiliado”.

Loay al-Yassiri, governador provincial, admitiu que a corrupção generalizada provocou as manifestações de protesto. Num caso muito divulgado, a Comissão de Integridade do Iraque, órgão investigativo do governo, intimou várias autoridades do alto escalão em Najaf por supostamente terem facilitado um contrato fraudulento para construção de um novo aeroporto. Entre os intimados estava um assessor do governador, a comissão informou no mês passado.

“Todos estão participando da corrupção”, disse Yassiri em seu gabinete em Najaf, “E no Iraque isto se tornou um fenômeno”.

“Naturalmente as pessoas não estão indo para as ruas por nada. O sistema é ruim”, disse ele. / Tradução de Terezinha Martino

 

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