REUTERS/Henry Romero
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'Yaku Pérez não é de esquerda, ele nem é indígena', diz Correa sobre possível rival de seu aliado

Ex-presidente equatoriano nega que Andrés Arauz seja seu fantoche, mas acredita que vitória eleitoral de domingo passado também seja sua; apesar da afirmação de Correa, Yaku Pérez tem ascendência indígena

Redação, O Estado de S.Paulo

11 de fevereiro de 2021 | 09h00

BRUXELAS - Rafael Correa é contundente. Embora sinta a vitória eleitoral de Andrés Arauz como sua, o ex-presidente equatoriano nega que ele seja um fantoche ou represente sua passagem de volta para o Equador. Condenado à revelia por corrupção, Correa conversou com a AFP para falar sobre a disputa presidencial que seu aliado irá enfrentar.

Correa promoveu a campanha de sucesso de Arauz, ex-membro de seu gabinete, da Bélgica, onde se instalou assim que deixou o poder (2007-2017). A partir de então, começou o que ele considera uma perseguição política por parte do governo de Lenín Moreno, seu ex-aliado e ex-vice-presidente.

O ex-presidente, que arrasta uma pena de oito anos de prisão não cumprida, traçou alguns limites para o duelo final entre Arauz - 36 anos, vencedor do primeiro turno - e o indígena de esquerda Yaku Pérez ou o o ex-banqueiro de direita Guillermo Lasso, que travam uma disputa acirrada para chegar ao segundo turno, em 11 de abril.

A vitória eleitoral é de Andrés Arauz ou de Rafael Correa e por que não foi vencida no primeiro turno?

No dia 7 de fevereiro triunfou a verdade e a gratidão de um povo, que também não é estúpido e pode comparar a tragédia que vive agora com a prosperidade que viveu durante meu governo. Seria desejável vencer em um um único turno, mas sempre soubemos que era difícil. Mas o resultado é espetacular, não podemos tapar o sol com a peneira. O que acontece é que nos superestimam e nos acostumamos a vencer em um turno.

Alguns descrevem Arauz como seu fantoche e acreditam ele poderia traí-lo.

Quando não se tem do que acusar alguém, eles precisam insultá-los. Já é um argumento ad hominem, eles não podem refutar os argumentos, as ideias, e têm que atacar a pessoa. Mas é cruel, porque é uma pessoa jovem. Por ser jovem, como subestimam a juventude, (dizem) que ele é uma marionete. Se Andrés fosse um traidor, ele já teria me traído.

Se Arauz ganhar a eleição, o senhor retornará ao Equador e haverá vingança?

Não, porque a vitória eleitoral não resolve os problemas jurídicos. Acordo todos os dias para ver que nova prova eles me colocaram. Até agora são 39. Nem Al Capone, 'Chapo' Guzmán e Pinochet juntos passaram por tantos julgamentos. Quando as condições normais retornarem ao país, esperamos que eles [os juízes] façam a coisa certa, caso contrário, os juízes internacionais o farão. Todos estão obcecados com meu retorno ao país, exceto eu. Mas meu pé está indefinidamente, o que não significa para sempre, na Bélgica. [O correísmo poderia voltar ao poder] com ânsia por justiça. Infelizmente, é a palavra que os maus mais temem. E enfrentamos não apenas a corrupção, enfrentamos o mal. Hitler não era corrupto, ele era mau.

É possível uma reconciliação com o anticorreismo?

Estou com todos pelo país, mas dentro dos limites éticos. Acho que reflito um pouco do pensamento do Andrés: tudo pelo diálogo, tudo pela lógica, tudo pela argumentação, tudo pelo bem do país, tudo pelo bem dos nossos jovens. Pelo poder, pela força nada.

Arauz disse que terá um excelente relacionamento com os Estados Unidos. O que você acha?

E quem não deseja ter um excelente relacionamento com os Estados Unidos? Eu queria ter tido. Eu acho que tive. Trump era um troglodita, as pessoas são importantes. Acho que Joe Biden é uma boa pessoa. No entanto, os Estados Unidos são uma máquina, então não esperemos que a política externa para a América Latina mude muito. Mas, em um nível pessoal, há obviamente uma diferença colossal entre Joe Biden e Trump.

Yaku Pérez representa a esquerda?

E quem lhe disse que Yaku Pérez é um candidato de esquerda? Ele é um candidato para contra a direita. Veja como apoiou o golpe contra Evo Morales, ele parabenizou [Jeanine] Áñez. Yaku Pérez não é de esquerda, por favor, ele nem é indígena. Tudo mimético. Yaku Pérez é uma ótima montagem. Ele tem o apoio da embaixada dos EUA.

O que você acha da nova relação do Equador com o FMI, da qual seu governo se afastou?

O relacionamento não voltou, voltou a submissão. E não é que nos nós tenhamos nos distanciado, estabelecemos condições: senhores do Fundo Monetário, sejam bem-vindos se quiserem nos assessorar de boa fé. Mas se vierem como vice-reis, vamos devolvê-los no mesmo avião. Em dez anos não tínhamos essas missões de vice-rei e estavámos melhor do que nunca.

A [atual] carta de intenções com o Fundo Monetário é uma verdadeira vergonha nacional, que nos impõe flexibilização trabalhista, redução do tamanho do Estado, privatizações, aumento do IVA em três pontos, mas ao mesmo tempo redução dos gastos públicos.

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