Yeltsin defendeu democracia, mas usou força contra crises

Quando Boris Yeltsin, morto nesta segunda-feira, 23, postou-se sobre um tanque de guerra para denunciar uma tentativa de golpe perpetrada por comunistas linha-dura em agosto de 1991, o então recém eleito presidente russo foi exaltado ao redor do mundo como um legítimo defensor da democracia. Uma reputação manchada apenas 14 meses depois, quando o líder também utilizou tanques para calar seus oponentes. Nessa ocasião, o homem que conclamou os russos a resistirem contra as forças que tentavam depor o presidente do Partido Comunista Mikhail Gorbachev, mostrou que usaria a tradicional maneira soviética toda vez que precisasse resolver suas próprias crises. No que foi provavelmente o melhor momento de sua carreira política, Yeltsin subiu em um tanque de guerra estacionado do lado de fora do Parlamento russo em 19 de agosto de 1991, para protestar conta a prisão de Gorbachev. O então presidente soviético havia sido detido um dia antes durante uma viagem para fora de Moscou por militares golpistas contrários às reformas.Após o incidente, o Parlamento - um majestoso prédio mármore nas margens do Rio Moscou - tornou-se o foco da resistência ao golpe. Dezenas de milhares de partidários do presidente cercaram o edifício, que durante três dias ficou conhecido como "Casa Branca", para combater um ataque que nunca ocorreria. Ainda assim, barricadas foram construídas com pedaços de ferro e concreto, e ônibus e outros veículos foram posicionados para bloquear as entradas do prédio. Em um gesto simbólico, Yeltsin pediu que os russos resistissem ao comitê de oito homens que tomou o poder, e conclamou os soldados a não atirarem contra seus compatriotas. "A junta que subiu ao poder não parará por nada para manter o poder", disse ele a uma multidão de 150 mil seguidores. "Eles perceberam que estão em uma situação que, se perderem, não ficarão apenas sem seus assentos, mas estarão no banco dos réus."O líder falou por apenas 10 minutos, argumentando que havia atiradores no topo dos prédios. Mas foi o suficiente para rachar o Exército e encorajar parte dos militares a se recusarem a invadir o prédio.Contra-ataqueNo entanto, 14 meses depois, em outubro de 1993, o presidente ordenou que o Exército russo cercasse o mesmo edifício, onde parlamentares contrários a uma tentativa de Yeltsin de dissolver o Parlamento se entrincheiraram. No episódio, Yeltsin "rasgou" a constituição e ordenou um ataque com tanques e artilharia contra o prédio de 19 andares. A crise foi deflagrada por uma tentativa de Yeltsin de emendar unilateralmente a Constituição para permitir a dissolução do Parlamento por decreto presidencial.Para piorar a situação, em dezembro de 1994, o presidente voltou a usar a força para atacar seus inimigos. Na ocasião, Yeltsin enviou tropas à Chechênia, região montanhosa do Cáucaso que havia declarado independência pouco após a queda do regime comunista. A investida deu início a um confronto armado que até hoje deixa vítimas na região.Apesar dos arroubos autoritários, Yeltsin sempre contou com o apoio do Ocidente, que temia que seu eventual enfraquecimento pudesse resultar numa volta ao comunismo. Não por acaso, o líder conseguiu aprovar sem grande críticas no exterior uma Constituição que concentrava os poderes na figura presidencial, ao invés de estimular a criação de um sistema de pesos e contrapesos. Além disso, Yeltsin foi responsável pelas desastrosas reformas econômicas que levaram o capitalismo de mercado à Rússia. Os resultados imediatos das mudanças - que incluíram o fim do subsídio estatal ao preço dos alimentos - levou a dois anos de inflação incontrolável e o inevitável crescimento das classes pobres e miseráveis.Do outro lado do espectro econômico, no entanto, uma pequena parcela de novos-ricos se aproveitaram das privatizações das empresas estatais para consolidar grandes fortunas. A corrupção e a promiscuidade entre público e privado - uma herança da era comunista - ganharam força e se tornaram em uma aparente característica irreversível da Rússia moderna.DeclínioApós o ataque ordenado por Yeltsin em 1993 contra parlamentares, a sorte do líder russo entrou declínio. A partir daí tornaram-se comuns os episódios em que o presidente russo desapareceu de Moscou sem uma razão aparente. Sua saúde frágil era conhecida. Além disso, Yeltsin com freqüência abusava do álcool. A fraqueza do presidente exacerbou as tensões dentro de sua administração, abrindo caminho para que diferentes grupos brigassem por influência. Com a economia em frangalhos e na mira da opinião pública, a equipe de Yeltsin percebeu que era hora de desviar a atenção para um fato novo. Em agosto de 1999, o presidente apontou o até então desconhecido ex-agente da KGB Vladimir Putin para o cargo de primeiro-ministro, cuja primeira ação foi ordenar um acirramento da investida das forças russas na Chechênia. A última manobra de Yeltsin para salvar-se política - e agora criminalmente - veio no dia 31 dezembro de 1999, data em que ele anunciou sua renúncia. Com a medida, Putin tornou-se presidente interino, e sua primeira atitude foi garantir anistia e imunidade a Yeltsin.Com o controle da máquina e dos meios de comunicação estatais, Putin entrou na corrida para a Presidência, meses depois, com uma substancial vantagem em relação a seus adversários. E venceu, como era de se esperar.

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