YOANI PEDE 'MAIS ENERGIA' DO BRASIL EM RELAÇÃO A CUBA

Em evento no 'Estado', blogueira cobra mais 'dureza ou franqueza' na defesa dos direitos humanos; País rejeita acusação

O Estado de S.Paulo

22 de fevereiro de 2013 | 02h04

A blogueira cubana Yoani Sánchez pediu ontem uma "reação mais enérgica" em defesa dos direitos humanos em Cuba. Ela esteve na sede Grupo Estado, onde participou de um evento que reuniu mais de 200 espectadores no auditório do jornal. Ao todo, 70 veículos de comunicação, nacionais e internacionais, representados por 113 profissionais, participaram da entrevista coletiva que se seguiu ao encontro, no qual a dissidente do regime castrista conversou com os jornalistas Roberto Lameirinhas, editor de Internacional do Estado, e Lourival Sant'Anna, repórter especial. A seguir, os temas abordados pela colunista do Estado durante o encontro, que contou com a participação da plateia na elaboração das perguntas.

Relação entre Brasil e Cuba

"Houve uma melhora nas relações entre os governos cubano e brasileiro durante as presidências de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, principalmente na questão econômica", disse Yoani. Mas, segundo ela, o governo do Brasil se omite por não criticar a situação dos direitos individuais dos cubanos. "Estamos ampliando um porto (de Mariel, a 40 quilômetros de Havana) com a ajuda de capital brasileiro. Isso me parece bom, (mostra) que o Brasil está ajudando e apoiando Cuba, mas acho que faltou dureza ou franqueza (do governo brasileiro) ao tratar a questão dos direitos humanos na ilha. Houve omissão, no caso do Brasil. Não sou diplomata, mas recomendaria um posicionamento mais firme", afirmou a blogueira, na mais forte crítica à posição da diplomacia brasileira desde que ela chegou ao País.

Oficialmente, o governo brasileiro não se pronunciou sobre as declarações de Yoani. Mas uma fonte diplomática disse ontem que a diplomacia do País não concorda com as acusações. "Não esperem do Brasil um puxão de orelha em Cuba ou em qualquer outro país individualmente. Existem instâncias para que os temas, como os direitos humanos, sejam questionados", disse a fonte, após lembrar que o Brasil reconhece que houve avanços em Cuba, embora avalie que ainda haja necessidade de progressos.

Manifestações contra sua

presença no Brasil

Durante sua passagem pelo Nordeste e por Brasília, Yoani enfrentou intensas manifestações de movimentos de esquerda, que repudiavam sua presença e elogiavam o regime cubano. Os protestos repetiram-se ontem durante a sessão de autógrafos de seu livro, De Cuba, com Carinho, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional. Inicialmente, ela elogiou a "pluralidade" do Brasil e a possibilidade de ocorrerem protestos do gênero sem repressão do governo. Mas criticou os manifestantes pela tentativa de "calar" sua voz. "Quando não há argumentos, vêm os gritos." Ontem, a blogueira intensificou suas críticas aos protestos. "Acredito que todos têm o direito de protestar, a favor ou contra alguma coisa ou alguém, incluindo em relação a mim. Mas, quando se ultrapassa o limite da liberdade de expressão, do protesto, na direção da violência verbal e até a violência física, isso não é democracia, mas sim fanatismo", disse. Em todos os protestos que fazem contra a cubana, os manifestantes a qualificam de "mercenária" e a insultam de diversas outras maneiras. Na primeira mobilização, em sua chegada no aeroporto do Recife, na segunda-feira, o cabelo da blogueira foi puxado.

Financiamento

Yoani é acusada por seus críticos de ser "milionária" e contar com dinheiro do governo americano para realizar seu trabalho. "Pensam que tenho milhões de dólares, mas tenho bilhões de amigos." Ela afirma que saiu de Cuba com 200 pesos conversíveis, que trocou "metade em dólares e metade em euros" e sua viagem é bancada por entidades internacionais de defesa dos direitos humanos e liberdade de expressão, além de simpatizantes que conheceu pela internet.

Diferenças entre os

irmãos Castro

Para Yoani, a principal diferença entre Fidel e Raúl Castro é a maneira que o governo de cada um deles exerce a repressão aos opositores. A blogueira afirmou que o comandante da Revolução Cubana era mais "espetacular" nesse sentido, julgando presos políticos em processos que lhes rendiam longas penas. Já o atual líder prefere que os opositores "não sejam vistos" e opta pelas prisões relâmpago que os impedem de ir a protestos, por exemplo. "Raúl herdou o governo pela via sanguínea, como se fosse um reinado, o que é surpreendentemente absurdo", disse, apontando outra diferença entre os irmãos, já que Fidel conquistou o poder em um levante contra a ditadura de Fulgencio Batista.

Reformas em Cuba

A blogueira considera que as reformas socioeconômicas que o presidente Raúl Castro tem aplicado desde o fim de 2010 "estão na direção correta", pois "têm como objetivo melhorar a vida" dos cubanos. "A mudança na lei migratória também é insuficiente", disse Yoani, pois a nova legislação não afirma em seu texto que os cidadãos do país têm direito de deixar a ilha e poder retornar. "Durante décadas, o mercado imobiliário era difícil. Isso é importante na reforma 'raulista'. Quando o governo vê que não pode impedir algo, legaliza isso. A compra e venda de carros deu dinamismo a esses setores. Começou, então, a ocorrer um fenômeno de redistribuição das cidades por isso começamos a ver a diferença social. São medidas positivas, mas não são suficientes."

Ideologias

Yoani afirmou que se relaciona "muito mal" com as ideologias. "Sou uma pessoa pós-moderna, cultuo a liberdade", disse, afirmando que se preocupa muito com os mais pobres. "Não acredito que em Cuba haja socialismo. E a ilha nunca chegou ao comunismo. O que existe em Cuba é um capitalismo de Estado", afirmou. Apesar disso, na opinião da blogueira, a ajuda que a União Soviética proveu ao regime cubano entre o começo da década de 60 e o início dos anos 90 contribuiu para que Cuba se aproximasse de uma sociedade puramente comunista. "Quando o Muro de Berlim caiu, isso começou a mudar."

Quando o senador Eduardo Suplicy (PT-SP), que esteve presente no evento do Estado, perguntou à cubana o que ela pensava de uma frase da presidente Dilma Rousseff - "é sempre preferível o ruído da imprensa livre do que o silêncio da ditadura" -, Yoani respondeu que tem vontade de gravar essas palavras "em mármore". "Essa é uma frase que me encanta. Gosto muito dela, pois essa é minha causa, minha vida", disse a cubana.

Economia cubana

"Desde 1993, Cuba utiliza duas moedas, o que considero esquizofrenia", disse. "Muitos buscam outra forma de sustento. Por exemplo, um cozinheiro que trabalha em um restaurante pode roubar algum alimento para dar à família ou negociar no mercado negro. Outra coisa que acontece é as pessoas buscarem um trabalho paralelo, como a prostituição."

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