Zelaya inicia retorno a Honduras

Caravana de líder deposto tentará cruzar fronteira da Nicarágua até domingo; governo de facto reforça vigilância

Roberto Lameirinhas, TEGUCIGALPA, O Estadao de S.Paulo

24 de julho de 2009 | 00h00

Esgotada a via diplomática e na iminência do retorno a Honduras do presidente deposto dia 28, Manuel Zelaya, nenhuma possibilidade - incluindo o cenário de violência - está descartada no país. Acompanhe as negociações e leia mais sobre a crise em Honduras "Somos um povo pacífico e queremos apenas viver em paz e em democracia, mas esse senhor está buscando uma guerra civil para implementar seu projeto político que a população está rejeitando nas ruas e perpetuar-se no poder", disse ao Estado o diretor do Instituto de Defesa da Democracia e Segurança Jurídica de Tegucigalpa, Gustavo Reina. "Os hondurenhos estão dispostos a defender sua liberdade."O prazo dado por Zelaya para seu retorno ao país, provavelmente atravessando a fronteira terrestre com a Nicarágua, esgota-se amanhã. Ontem, ele partiu de Manágua com uma caravana, que inclui a mulher dele e filhos, para instalar-se, inicialmente, em alguma cidade nicaraguense próxima da fronteira. Em entrevista a uma TV argentina, Zelaya disse que amanhã ou domingo tentará entrar em seu país.Manifestantes pró-Zelaya - que ontem bloquearam as principais estradas de Honduras, em oito pontos diferentes do país - começaram a viajar até a fronteira para defender o presidente deposto. Por seu lado, o governo de facto de Roberto Micheletti também está reforçando os postos ao longo da divisa e adverte que os militares têm ordem para prender Zelaya, caso ele cumpra a promessa de retornar. Militares hondurenhos bloquearam ontem o acesso à localidade de Las Manos, por onde Zelaya planejaria entrar, para impedir o avanço dos partidários do líder deposto. O governo também ampliou o toque de recolher - das 18 às 6 horas - nas cidades fronteiriças.Na quarta-feira à noite, após o fracasso das negociações mediadas pelo presidente da Costa Rica, Oscar Arias, Zelaya pediu ao comandante do Estado-Maior Conjunto do Exército, general Romeo Vásquez Velásquez, que "baixe seus fuzis", responsabilizando-o por qualquer eventual atentado contra a vida dele ou de seus seguidores. Os militares disseram que não se responsabilizam pela segurança de Zelaya. "Não tenho medo, mas sei que há ameaças de que, ao chegar, vão atirar em mim. Eles (o governo golpista) disseram que estão dispostos a isso", disse o presidente deposto.Pesa contra Zelaya uma ordem de prisão emitida pela Corte Suprema, que o acusa de tentar violar a Constituição hondurenha ao forçar a realização de uma consulta popular sobre a instalação de uma Assembleia Constituinte. Por essa razão, com o apoio do Congresso e do Judiciário hondurenhos, soldados invadiram a residência de Zelaya na madrugada do dia 28 e o forçaram a deixar o país. Desde então, o governo de facto tenta convencer a comunidade internacional de que a destituição foi legal.Em outro ponto potencialmente explosivo, vence hoje, ao meio-dia, o prazo para que diplomatas venezuelanos que ainda estão em Tegucigalpa deixem o país. A chancelaria da Venezuela diz que não reconhecerá a expulsão dos diplomatas ordenada pelo que considera um governo ilegítimo. Micheletti acusa o governo de Hugo Chávez de incitar e financiar os movimentos sociais que apoiam Zelaya. Nos primeiros dias da crise, Chávez afirmou que consideraria "um ato de guerra" qualquer ação contra o pessoal de sua missão diplomática em Tegucigalpa.Ontem, policiais hondurenhos patrulhavam os arredores do edifício da embaixada na capital, mas o chanceler do governo de facto, Carlos López Contreras, afirmou que não prenderia os diplomatas chavistas após o prazo. "Seus passaportes diplomáticos serão considerados sem valor, mas eles poderão permanecer no país com status de turistas", disse.?VIOLAÇÕES GRAVES?Uma missão internacional denunciou ontem que ocorreram "violações graves e sistemáticas" dos direitos humanos em Honduras após o golpe de Estado. A missão, formada por 15 delegados da Federação Internacional de Direitos Humanos, do Centro pela Justiça e Direito Internacional, e do Serviço Paz e Justiça, entre outras entidades, citou entre os abusos execuções extrajudiciais durante o toque de recolher, detenções arbitrárias, pressões à mídia e jornalistas contrários ao governo de facto, e a suspensão dos direitos fundamentais. O grupo divulgou um relatório de 14 páginas que menciona quatro assassinatos por motivações aparentemente políticas. O governo de facto nega a denúncia. ENTENDA A CRISEPor que o presidente deposto de Honduras, Manuel Zelaya, ainda não conseguiu voltar para seu país?No dia 5, o avião em que estava tentou pousar em Tegucigalpa, mas foi impedido pelas Forças Armadas, que bloquearam a pista do aeroporto. Além disso, o governo de facto - que o afastou do poder no dia 28 e o enviou para a Costa Rica - se recusa a aceitar que Zelaya volte ao poder e termine seu mandato, em janeiro.Se ele realmente conseguir voltar, quais os riscos que corre?Os golpistas garantem que se Zelaya voltar a Honduras, ele será levado à Justiça e responderá por pelo menos 15 crimes cometidos antes do golpe de Estado. A Corte Suprema acusa Zelaya de tentar violar a Constituição hondurenha ao forçar a realização de uma consulta popular sobre a instalação de uma Assembleia Constituinte. Os protestos no país podem se radicalizar?Sim. O clima está bastante tenso em Tegucigalpa e os dois lados fazem ameaças. Os partidários de Zelaya prometem iniciar uma "insurreição" e as autoridades do governo de facto dizem que estão prontas para resistir e se manter no poder.Um governo de transição não seria uma solução?Zelaya aceita fazer parte de um eventual governo de conciliação nacional, mas o governo de facto diz que não participará de nenhuma coalizão liderada por Zelaya. Quais as consequências econômicas e sociais da crise hondurenha?Após o golpe, muitos países e organizações impuseram sanções contra Honduras. O Banco Mundial suspendeu um crédito de US$ 270 milhões; o BID, um repasse de US$ 200 milhões; a União Europeia, uma ajuda de US$ 92 milhões e os EUA estudam aplicar um embargo. Essas sanções podem ter um forte impacto na população de Honduras - o 2.º país mais pobre da América Central -, que depende fortemente da ajuda externa e da exportação de café, banana e frutos do mar, principalmente para os EUA. O turismo no país foi seriamente afetado. Por que a negociação entre as facções não avança?As três tentativas de mediação feitas pelo presidente costa-riquenho, Oscar Arias, fracassaram. Na quarta-feira, Arias apresentou sua última proposta. Mas a possibilidade de que Zelaya volte a Honduras para concluir seu mandato é considerada inaceitável pelo governo golpista. Como há eleições presidenciais marcadas para novembro, suspeita-se que o governo de facto esteja frustrando as negociações para manter-se no poder, pelo menos, até a transição.

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