Sergei Supinsky/AFP
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Quem é o presidente da Ucrânia? Conheça o ex-comediante Volodmir Zelenski

Mesmo enquanto pairavam dúvidas a respeito de sua capacidade de liderar, Volodmir Zelenski, um ex-ator, fez a apresentação de sua vida enquanto as forças russas se preparavam para invadir

Valerie Hopkins, The New York Times, O Estado de S.Paulo

25 de fevereiro de 2022 | 05h00
Atualizado 25 de fevereiro de 2022 | 10h29

KIEV — Ele apareceu na TV ucraniana no início da madrugada da quinta feira, quando a ameaça da guerra apertava. Primeiro, o presidente da Ucrânia, Volodmir Zelenski, dirigiu-se aos 44 milhões de habitantes de seu país. Depois, ele se dirigiu aos 144 milhões de russos que vivem ao lado e suplicou a eles que evitassem um ataque que evoca a era mais obscura da Europa desde a 2.ª Guerra.

“Ouçam a voz da razão”, afirmou Zelenski depois da meia-noite em Kiev. “O povo ucraniano quer paz.”

Foi uma tentativa apaixonada de salvar seu país — e não funcionou. Horas depois, começou uma invasão da Rússia em escala total, e Zelenski, ex-ator e comediante da TV, tornou-se um líder em tempos de guerra. E até o momento, enquanto o ataque russo continua, os ucranianos estão unidos em torno dele.

Seu dramático discurso, assim como sua presença na Conferência de Segurança de Munique, no fim de semana passado, onde ele alertou os aliados europeus a respeito de “apaziguar” a Rússia, deram a Zelenski algo que mesmo seus aliados normalmente não lhe atribuiriam — peso.

Ele enfrentará agora a maior crise em seu país na história moderna, tendo de encarar o presidente russo, Vladimir Putin.

“Putin iniciou uma guerra contra a Ucrânia e contra todo o mundo democrático”, afirmou Zelenski num segundo discurso ao país, na quinta feira, depois de militares russos atingirem alvos em 16 cidades de todo o país, incluindo na capital, Kiev. “Ele quer destruir nosso país e tudo o que temos construído. Mas nós conhecemos a força do povo ucraniano.”

“Vocês são indomáveis”, acrescentou ele. “Vocês são ucranianos.”

Continua profundamente incerto por quanto tempo — ou mesmo se — os ucranianos conseguirão resistir efetivamente a um Exército russo vastamente maior e superior ou se  Zelenski continuará no papel para o qual não ensaiou absolutamente. A opinião pública ainda poderia se voltar completamente contra ele, como em meados de fevereiro, quando a ameaça da guerra cresceu. E um perigo mais sério está à espreita: um possível assassinato — um prospecto que até o gabinete de Zelenski levantou na quinta feira, quando as forças russas se aproximavam de Kiev.

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A analista política Maria Zolkina, que trabalha na Democratic Initiatives Foundation, afirmou que Zelenski “não escolheu lutar e não é um presidente de tempo de guerra. Mas desde ontem, quando ficou claro a partir de suas informações de inteligência a forma que o ataque tomaria, ele está agindo exatamente como um presidente deveria agir em regime de guerra”.

Zelenski chegou ao poder como um lutador anticorrupção, confiante na época em sua capacidade de alcançar a paz no duradouro conflito com os separatistas apoiados pela Rússia, então confinados no leste do país. Ele venceu de lavada, com 73% dos ucranianos o apoiando em detrimento do então presidente, Petro Poroshenko, um rico empresário que havia assumido uma posição dura contra Moscou.

Zelenski não tinha experiência anterior na política além de encenar o papel de um presidente na TV. Ele venceu com base em uma agenda populista, combatendo uma abastada classe de oligarcas, e prometeu ser um presidente pragmático, cuja visão para a Ucrânia não era nem de “uma parceira corrupta do Ocidente” nem de uma “irmã mais nova da Rússia”. Seu apoio mais consistente veio do sul e do leste da Ucrânia, incluindo as regiões de Donetsk e Luhansk, afligidas pelo conflito, parte das quais são controladas por dois enclaves separatistas, cuja independência foi reconhecida por Putin na segunda feira.

Desde então, dúvidas surgiram a respeito de sua capacidade de conduzir a Ucrânia por estreitos tão perigosos e da competência dos conselheiros dos quais ele se cercou, muitos vindos de seu estúdio de comédia, Kvartal 95. Ainda que seu pessoal militar e de defesa seja bastante respeitado e ele tenha gradualmente constituído uma equipe meritocrática, muitos dos que o cercam chegaram com pouca experiência de governo, ainda mais em se tratando de diplomacia de guerra.

Desde a invasão russa, eles estão nas linhas de frente. E Zelenski, em seu derradeiro esforço para evitar a guerra, aproveitou o momento e todo seu drama de uma maneira que poucos esperavam, dando a pessoas sob ataque um ponto de união muito necessário.

Quando Zelenski se dirigiu diretamente aos russos, mudando a língua de seu discurso para o russo, ele se referiu a eles como vizinhos e família, mesmo enquanto reconhecia diferenças e admitia que eles provavelmente jamais ouviriam suas palavras, dado o controle estrito do Kremlin sobre os meios de comunicação na Rússia.

O Parlamento da Ucrânia declarou estado de emergência militar, e o governo anunciou que dará armas a qualquer um com experiência de combate que esteja disposto a defender o país e pediu que os ucranianos doem sangue para atender combatentes feridos.

“O futuro do nosso povo ucraniano depende de cada cidadão”, afirmou Zelenski na quinta feira.

“O inimigo sofreu baixas graves”, acrescentou ele. “As baixas do inimigo serão ainda piores. Eles invadiram a nossa terra. A Ucrânia está sob ataque pelo norte, leste e sul. Atacada pelo ar. Proteção funciona. Hoje, o Exército e a solidariedade nacional são os alicerces do estatuto do Estado ucraniano.” Foi uma declaração esperançosa, considerando o tamanho do poder de fogo russo que seus soldados estão enfrentando.

A trajetória de Zelenski espelha a de seu país, que está em guerra contra separatistas apoiados pela Rússia há oito anos. A década passada testemunhou uma dramática ascensão do orgulho nacional ucraniano e do uso da língua ucraniana, juntamente com a confiança na democracia e a orientação pró-Ocidente. A confiança na Rússia e o respeito pelo governo autoritário de Putin diminuíram.

“Ele se transformou porque, basicamente, a sociedade ucraniana se transformou”, afirmou Volodmir Yermolenko, filósofo que edita a revista Ukraine World.

O presidente era “um cidadão do leste ucraniano, de fala russa, que fazia negócios em língua russa”, afirmou ele, referindo-se ao canal de TV de Zelenski, o Kvartal 95. “Os russos teriam esperado políticas pró-Rússia de sua parte, mas ele entende que os russos querem fazer tudo segundo seus próprios termos e dominar a Ucrânia, negar a existência da Ucrânia. É evidente que, de maneira gradual, ele se tornou um típico patriota ucraniano.”

E os ucranianos se uniram em torno de Zelenski, mesmo que suas tentativas iniciais de minimizar o prognóstico sombrio do presidente Joe Biden sobre uma invasão total da Rússia tenham causado consternação e custado ao país um tempo crucial para se preparar.

“Os ucranianos estão se unindo, temos um presidente”, afirmou Daria Kaleniuk, diretora do Centro de Ação Anticorrupção da Ucrânia, um influente instituto de pesquisa.

“Ele é comandante-chefe, e o Exército ucraniano está seguindo suas instruções. Agora o estamos apoiando, ele está liderando o país em guerra, independentemente de qualquer crítica sobre como poderia ter lidado melhor com a situação antes. O papel dele é crucialmente importante neste momento.”

Essa união é notável em uma Ucrânia que tem sido marcada por turbulência política.

Mesmo o antecessor de Zelenski — Poroshenko, que o governo de Zelenski quis prender sob acusações de traição e apoio ao terrorismo, que muitos afirmam ter motivações políticas — o apoia.

“Quero que todos percebam que Kiev demonstra um comportamento responsável”, escreveu Poroshenko no Facebook.

Alguns querem que Zelenski alcance a paz a qualquer preço.

“Quero que nosso presidente hasteie uma bandeira branca, quero que desistamos, contanto que não haja guerra”, afirmou Oksana Zymunova, uma assistente de vendas de 23 anos que buscava freneticamente uma passagem de trem para sair de Kiev, na estação central da capital ucraniana. “Só que não haja guerra. Entendo que ele teme que as pessoas não aceitarão isso”, afirmou ela, se referindo a Zelenski, “mas ele tem de hastear a bandeira branca”.

Vestida com calças de agasalho cor de rosa-claro e carregando seus dois gatos em caixas de transporte, Zymunova amaldiçoava a falta de bilhetes de trem para qualquer lugar. Mas a maioria dos ucranianos ficou firme.

“As pessoas estão ficando aqui e arriscando suas vidas porque este país é mais do que simplesmente território”, afirmou Fedir Serdiuk, de 26 anos, que administra uma firma que dá treinamentos em primeiros-socorros.

“Isso uniu o povo”, sustentou ele, acrescentando que, conforme a tensão escalava, “as pessoas compravam munições em vez de passagens aéreas”.

Mas Kaleniuk teme que Zelenski tenha sido abandonado pelos aliados do Ocidente, que não impuseram sanções fortes o suficiente contra Putin e seus colaboradores.

“O que está acontecendo agora é similar ao que aconteceu em 1939”, afirmou Kaleniuk, referindo-se à invasão da Alemanha nazista à Polônia.

“Ninguém acreditava que a Alemanha invadiria um país europeu. E ninguém acreditava que Putin, o novo Hitler do nosso tempo, invadiria um país pacífico. Os primeiros civis já foram mortos, e mais estão sofrendo. Temos alertado nossos parceiros do Ocidente que é necessário ser duro com os russos— não apaziguá-los. Isso é um convite para mais violência.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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