AFP PHOTO / Zinyange AUNTONY
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Vice volta ao Zimbábue e anuncia nova democracia

Segundo Emmerson Mnangagwa, que assume a presidência na sexta-feira, vontade do povo prevaleceu

O Estado de S.Paulo

22 Novembro 2017 | 16h01
Atualizado 22 Novembro 2017 | 21h14

HARARE -  O vice presidente do Zimbábue, Emmerson Mnangagwa, retornou nesta quarta-feira ao país e deverá ser empossado presidente sexta-feira, 24. Em seu primeiro discurso desde o início da crise que levou à intervenção do Exército e à renúncia do presidente Robert Mugabe, Mnangagwa anunciou ontem o “início de uma nova democracia”. 

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 Prometendo “servir ao povo”, o vice-presidente, de 75 anos, pediu que “todos os patriotas trabalhassem juntos”. “Queremos o crescimento de nossa economia, queremos empregos”, disse. O Zimbábue enfrenta um desemprego em massa, uma crise de liquidez e um endividamento crescente.

Dezenas de pessoas se amontoaram na saída do aeroporto para dar boas-vindas ao novo líder com cartazes de apoio a Mnangagwa. Cacique do regime de Mugabe, ele voltou a dizer que optou pelo exílio – que seria na África do Sul, segundo a mídia –     por temer por sua segurança depois de ter sido expulso do governo, no dia 6, após um confronto com a primeira-dama, Grace. Aparentemente, Mugabe destituiu seu vice-presidente para abrir o caminho para a mulher tornar-se sua sucessora no poder.  

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Em discurso, Mnangagwa agradeceu ao Exército que, após sua destituição, interveio na noite do dia 14 em um golpe de estado contra Mugabe. Antigo pilar do aparato de segurança estatal, Mnangagwa revelou que esteve “em permanente contato” com os líderes do Exército durante a crise.  

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Sob pressão dos militares, das ruas e de seu partido (Zanu-PF), Mugabe, de 93 anos, concordou na terça-feira em renunciar depois de 37 anos no comando do país.

“As tentativas de descarrilar este processo foram intensas”, assegurou Mnangagwa, também conhecido como “ED” ou “crocodilo”, em razão de sua perspicácia na política. Ele já tinha sido nomeado no domingo líder da Zanu-PF e candidato governista nas eleições presidenciais de 2018, durante reunião do comitê central na qual havia sido dado um ultimato a Mugabe para que renunciasse.

O novo líder do país nasceu em Zvishavane, na região central do Zimbábue, mas cresceu na Zâmbia. É advogado de formação e recebeu treinamento militar na China – onde também frequentou a Escola de Ideologia de Pequim, controlada pelo Partido Comunista Chinês – e no Egito, antes de passar a integrar o comando da luta pela independência do Zimbábue, na década de 70.

Na revolução contra o governo controlado pela minoria branca – que herdou a ex-colônia britânica, na época chamada Rodésia –, Mnangagwa chegou a ser torturado pelo regime, depois que sua “gangue do crocodilo” começou a lançar ataques contra o regime do então premiê Ian Smith.

Em 18 de abril de 1980, o Zimbábue conquistou sua independência depois de 90 anos sob controle dos brancos. Ao menos 27 mil pessoas morreram durante a guerra de independência (1972-1979), entre nacionalistas negros e a minoria branca. Durante os confrontos internos que ocorreram na década de 80, Mnangagwa se tornou espião do governo de Mugabe, mas sempre culpou o Exército pelos massacres da época, negando participação nas ações. 

Considerado cruel por quem conviveu com ele, Mnangagwa é tido por muitos como o elo entre os militares, as agências de espionagem e o partido Zanu-PF, que continua no poder após a renúncia de Mugabe. Sua íntima ligação com o aparato estatal aumenta a desconfiança de que pouca coisa deve mudar no Zimbábue. /AP, AFP e REUTERS

 

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