Zona de defesa aérea chinesa é uma aposta no longo prazo

Medida adotada por Pequim tem potencial para causar uma grave crise diplomática com Japão, EUA, Taiwan e Coreia do Sul

CHRISTOPHER, BODEEN, ASSOCIATED PRESS, O Estado de S.Paulo

27 de novembro de 2013 | 02h13

A nova zona de defesa aérea da China reafirma as reivindicações territoriais do país sobre ilhas em disputa, mas não deve desencadear imediatamente confrontos com aviões estrangeiros. A medida, porém, se encaixa no modus operandi dos chineses para fazer valer seus direitos e tem potencial para provocar confrontos perigosos, dependendo da força com que seja implementada.

Embora a zona de defesa comece lentamente, Pequim tem um histórico de apostar no longo prazo e analistas preveem um aumento gradativo das atividades. No sábado, a China divulgou um mapa dessa zona e estabeleceu um conjunto de regras segundo as quais os aviões que entrarem na região estão sujeitos a ações militares de emergência se não se identificarem ou obedecerem às ordens de Pequim.

A declaração parece ter sido um fiasco como tática de política externa. Para analistas, a China calculou mal a contundência e a rapidez com que seus vizinhos rejeitaram suas demandas. Washington, que tem centenas de aviões militares estacionados na região, declarou que não tem nenhuma intenção de cumprir a diretiva. O Japão qualificou a zona de defesa aérea como inválida, inaplicável e perigosa. Taiwan e Coreia do Sul também rejeitaram a medida.

"No curto prazo, a decisão de Pequim debilita sua campanha para exercer mais influência regional", disse Bonnie Glaser, especialista do Centro de Estudos Internacionais e Estratégicos, em Washington. "Não interessa aos chineses criar tensões com tantos vizinhos simultaneamente."

A China enfrenta dificuldades práticas para implementar a zona de defesa em razão das deficiências de seus sistemas de controle, de alarme e de reabastecimento em voo, o que dificultará a detecção de aviões e a manutenção de suas aeronaves no espaço aéreo, segundo Greg Waldron, da revista Flightglobal, de Cingapura.

Apesar disso, Pequim não mostra sinais de recuo e insiste em impor agressivamente seu direito sobre as ilhas no Mar do Sul da China. A tensão com Tóquio continua forte no caso das ilhas chamadas Senkaku/Daioyu. Autoridades chinesas ficaram furiosas com a nacionalização das ilhas feita pelo Japão, em setembro de 2012, e com a ameaça feita pelos japoneses de que derrubarão drones da China na região.

A zona de defesa aérea foi elogiada pelos nacionalistas radicais chineses, ressaltando a necessidade de Pequim de aplacar o segmento mais eloquente da opinião pública local. Estrategicamente, ela também serve para manter viva a controvérsia sobre as ilhas, favorecendo o objetivo de forçar Tóquio a admitir que elas são objeto de disputa - primeiro passo para uma administração conjunta ou o controle unilateral da China sobre elas.

Para June Teufel Dreyer, da Universidade de Miami, Pequim deverá fazer uma pausa até as críticas diminuírem. Depois, criará algum incidente diplomático e alertará os aviões militares japoneses para não sobrevoarem aquele espaço, mas sem confrontá-los.

"A China complicou ainda mais a questão por não ter consultado outros países sobre os protocolos que ela deseja que sejam respeitados, nem informou as normas estabelecidas para os pilotos chineses", disse Ross Babbage, presidente da Kokoda Foundation, da Austrália. "Esse é o tipo de situação que tem potencial para se agravar." / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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