Zoológico de Cabul funciona na base da esperança

Marjan, o leão cego de um olho, consegue seus 10 quilos diários de carne graças a um açougueiro caridoso. Os coelhos enjaulados comem comida barata. No total, o desesperado pequeno zoológico de Cabul é uma ruína que funciona baseado na esperança. "Não podemos deixar esses animais morrerem", disse o diretor do zoológico, Sheragha Omar, um homem cortês de baixa estatura e barba grisalha aparada. "É nosso brio pashtun. Não contabilizamos os custos. Nosso dever é salvá-los". Os sete filhos de Omar estão à beira de passar fome, pois ele não recebe o salário de US$ 20,00 desde de junho mas, mesmo assim, encontra uns trocados para ajudar as 11 pessoas necessitadas que trabalham para ele. Facções em guerra há muito destroçaram o local, juntamente com a maior parte da cidade. Granadas destruíram o prédio principal, estilhaçando o belo e antigo aquário. Muitas das grades das jaulas estão torcidas, as portas abertas penduradas. O urso afegão é um sobrevivente nervoso. Não há dinheiro para tratar de grande ferida aberta no nariz que, segundo Omar, deve-se aos visitantes talebans estúpidos que bateram violentamente nele com pedaços de pau. Marjan está sentado na sua toca, apático e solitário, mal levantando quando Omar chega para uma visita. "Ele tem a minha idade", ri Omar. Quase. Omar tem 48 anos e Marjan 45. "O pobre animal não tem uma companheira, está envelhecendo depressa. E também está traumatizado por ter visto a morte de perto". Durante os tumultuados anos 90, depois que o russos partiram, um guerrilheiro afegão, querendo se exibir para os amigos, pulou a cerca de proteção, entrou no toca do leão e provocou-o. Marjan o comeu. No dia seguinte, o irmão do guerrilheiro aplicou o rígido código de vingança dos afegãos. Atirou uma granada de mão no leão. Marjan, esperando comida, agarrou-a. A explosão arrancou um olho e quase o matou. Em um outro dia negro, um outro guerrilheiro afegão divertiu-se lançando uma granada impelida por foguete no elefante. Hoje, as 37 espécies do zoológico estão reduzidas a 19 e incluem algumas escolhas curiosas, como um felino não-identificado que parece um gato doméstico mal-humorado. "Estamos esperançosos", disse Omar. "Costumávamos ter cerca 100 visitantes por dia e agora temos 200. As pessoas não têm mais medo de sair de casa. Até temos mulheres agora que levantam a máscara da burka para enxergar melhor". Mas sua contabilidade conta uma história menos otimista. A operação do zoológico custa cerca de US$ 6 mil por mês, enquanto a arrecadação da bilheteria é de apenas US$ 300,00. E a pressionada cidade de Cabul, com pessoas famintas nas ruas, tem outras prioridades. Omar duvida que a caótica administração da Aliança do Norte agora governando Cabul irá financiar o zoológico. Seus soldados nem pagam a entrada de cinco centavos de dólar quando o visitam. Promessas do exterior alimentam suas esperanças. O governo do Quênia anunciou que iria providenciar animais exóticos em 10 anos caso o zoológico, e o Afeganistão, durem tanto. Associações de zoológicos de vários locais ofereceram ajuda. Omar considera que foi um milagre o zoológico ter sobrevivido ao Taleban. Certa vez, contou ele, uma redução orçamentária veio acompanhada de uma ordem para se demitir 16 dos 19 empregados. "Eu expliquei que aquilo era impossível", disse, "e conseguimos manter funcionários suficientes". E então o ministro da Justiça do Taleban apareceu um dia e exigiu saber que lei do Islã permitia a manutenção de animais. A menos que Omar pudesse citar o texto apropriado, os animais seriam libertados. Sem conseguir oferecer a resposta, Omar recorreu ao departamento de zoologia da Universidade de Cabul - que também não tinha uma posição. Finalmente, o departamento de teologia certificou que o profeta Maomé manteve animais domésticos. O zoológico estava salvo. Leia o especial

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.