Tom Jamieson The New York Times
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Artista se diverte com suas obras enquanto aguarda a catástrofe

Trabalhos de Heather Phillipson fazem espectadores sorrir, mas por dentro de seu exterior estão mensagens sombrias e urgentes

Alex Marshall, The New York Times - Life/Style

28 de agosto de 2020 | 05h00

LONDRES – A última obra da artista Heather Phillipson é uma estátua de 10 metros de altura de uma porção de chantilly com uma mosca em cima. Isto não foi fácil. Em março, a obra deveria ser instalada sobre um pedestal vazio em Trafalgar Square, a última de uma série de encomendas que traz a arte contemporânea para a praça no centro de Londres. Mas no dia em que ocorreria a instalação, a Grã-Bretanha decretou o lockdown.

Logo em seguida, ela  conversou com as autoridades londrinas sobre a possibilidade de a obra ser instalada mesmo durante a pandemia. O título da obra, “O Fim”, não tinha as melhores conotações no momento em que milhares de pessoas estavam morrendo. “Começou a parecer como se nunca haveria um momento bom, um momento adequado, para a instalação”, disse a artista em uma recente entrevista em seu estúdio.

“The End” finalmente foi inaugurada. A obra foi concebida em 2016, não muito depois de a Grã-Bretanha votar pela saída da União Europeia. Phillipson contou que sua intenção era que a escultura de creme desse a impressão de desfazer-se pela plataforma, de precariedade, porque era assim que o mundo se sentia na época. Recentemente, acrescentou, as coisas pioraram.

Mas as pessoas poderão dar à estátua a interpretação que quiserem, prosseguiu. Ela até se sentiria feliz se a vissem apenas como uma brincadeira. “Pessoalmente, eu me sinto atraída pelas coisas que me desconcertam”, afirmou. “Se eu não entendo aquela coisa, será isto que me prenderá”.

O prazer por se sentir confusa é fundamental nas obras de Phillipson, cujos representações extravagantes muitas vezes traem  sombrias mensagens urgentes sobre a destruição ambiental ou o tratamento dos animais pelo homem. Ela é vegana (desde “antes que isto virasse moda”) e suas entrevistas são repletas de conversas sobre  a iminente destruição do planeta.

“The End” é uma peça mais ambígua, mas uma enorme instalação  planejada para o Tate Britain será talvez mais típica: Phillipson transformará a galeria central do museu em “uma sequência de paisagens tresloucadas, vendo a terra como uma erupção do pensamento, à beira da terminação,” explicou. Esta obra seria supostamente inaugurada neste verão, mas a data foi adiada por causa do coronavírus, e está prevista para 2021.

Em 2018, ela expôs “The Age of Love” (A Era do Amor, em tradução livre) no Baltic Center for Contemporary Art no norte da Inglaterra, onde ela cobriu o chão do museu com máquinas agrícolas e vídeos psicodélicos de caracóis copulando e gatos com olhos giratórios, no fundo, há um crescendo de música para dançar. Um crítico de um jornal local escreveu que sua obra “fala da nossa situação ambiental contemporânea, e quer nos apavorar para que trabalhemos  ainda mais para mudar o mundo’.

No mesmo ano, Phillipson fez uma instalação de 80 metros em uma plataforma abandonada do metrô de Londres. A obra apresentava telas de TV que pareciam andar sobre gigantescas pernas de galinhas, algumas davam a impressão de exalar mau odor. “É suficiente para nos tornarmos veganos”, escreveu o crítico Adrian Searle em um artigo para o “The Gaurdian”.

A artista insiste que a sua obra não fala apenas de suas posições políticas ou de suas escolhas de estilo de vida. “Sim, sou vegana, mas sou também uma mulher, uma feminista”, afirmou. “Na minha arte, entra todo tipo de coisas, porque qualquer que seja a minha ideologia, estará ali, em algum nível. Mas não pretendo levantando uma discussão”.

Ekow Eshun, presidente do grupo que encomenda obras para o Fourth Plinth, como é conhecido o pedestal em Trafalgar Square, disse em uma entrevista por telefone que Phillipson é magistral em “provocar estranheza e desconforto, o absurdo do momento contemporâneo, e em montar isto de formas inesperadas”, Por outro lado, sua obra é também “extremamente agradável”, acrescentou.

Iwona Blazwick, diretora da Galeria Whitechapel de Londres, que encomendou obras de Phillipson, disse em uma entrevista na Zoom que sua arte consegue ser “ao mesmo tempo hilariante e aterradora”. “Na realidade, ela me lembra dos surrealistas,” disse Iwona. Assim como eles, Phillipson justapõe  itens sem nenhuma relação entre si para dar-lhes um novo significado. “É isto que a distingue, que a torna uma grande escultora”, acrescentou.

Em seu estúdio, Phillipson – que não está representada em galerias e trabalhou como administradora de escritório até cerca de cinco anos atrás – parecia surpresa com o seu recente sucesso. Ela nunca esperava  receber a encomenda do Fourth Plinth, afirmou. Em 2016, quando ela recebeu um e-mail convidando-a a apresentar uma ideia. Sua resposta foi: “É engraçado. Não é possível que eu consiga tudo isto”.

Nascida em Londres, Phillipson passou grande parte da adolescência no interior de Gales. Sua mãe era assistente social e seu pai um músico que também fazia arte e escrevia poesia. (A própria Phillipson é poetisa e ganhou prêmios, foi DJ de raves ilegais e faz colagens de som que foram tocadas na rádio da BBC.)

Ela contou que não conseguia lembrar de nenhum momento específico que a tenha levado para a arte – sempre esteve ali, ela disse. E acrescentou que também não consegue lembrar de um momento em que ela não tivesse medo pelo futuro do planeta. Mas insistiu que sua visão de mundo não é tudo pessimismo. “O mundo é um lugar perturbador, não é? Mas também contém muita alegria”, ela disse. Suas obras “têm uma posição de conflito” entre estes pontos, acrescentou.

Na manhã de quarta-feira, Phillipson que usava três distintivos  do “Black Lives Matter”, parecia nervosa enquanto esperava em Trafalgar Square a inauguração de “The End”. Suas mãos tremiam quando pôs a máscara no rosto. Se ela ainda estava preocupada pensando se seria o momento adequado para mostrar a escultura enorme, não tinha motivo para isso.

Assim que “The End” saiu de baixo de um enorme lençol preto, os poucos transeuntes em Trafalgar Square pararam e ficaram olhando a obra de boca aberta. “Adorei!”, comentou Cheryl Lawrence, instrutora de mergulho. “É colorido, é festivo”. Quando falam para ela das motivações políticas de Phillipson na realização da obra, Lawrence não se impressionou. “O indivíduo médio não vai pensar em nada disso”, ela disse. Provavelmente irá fazer com que sinta vontade de tomar sorvete. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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