(Matthew Abbott/The New York Times)
(Matthew Abbott/The New York Times)

200 anos depois, australianos de origem chinesa ainda precisam provar que pertencem ao país

Sino-australianos lutam por reconhecimento e preservação de raízes

Isabella Kwai, The New York Times

18 Maio 2018 | 10h00

SYDNEY, Austrália - Man-Yee Leanfore, 70 anos, mostrou um documento de imigração de 1907 mostrando uma jovem usando tradicionais vestes chinesas olhando para o fotógrafo. Idade: 29 anos. Constituição: magra. Cabelo: escuro. Nacionalidade: chinesa.

O documento permitiu que a avó de Man-Yee, Yuck Land Hing, visitasse livremente a Austrália numa época em que a Política da Austrália Branca manteve afastada a maioria dos imigrantes asiáticos. Foi uma distensão limitada, três anos de exceção para o teste de ditado comumente usado para excluir os imigrantes não brancos.

A Austrália, que recebeu oficialmente seu primeiro imigrante chinês em 1818, há muito alterna entre aceitação e rejeição.

O parlamento da Austrália aprovou em 1901 uma lei exigindo que os imigrantes fossem aprovados num teste de ditado de 50 palavras para entrar no país. Como o teste era aplicado para manter afastados os imigrantes não brancos, havia uma pegadinha: o teste poderia ser realizado em qualquer idioma europeu.

Depois de algum tempo, “não havia nem um único chinês capaz de passar no teste”, disse Daphne Lowe Kelley, uma líder comunitária.

“Nós sofremos", disse Man-Yee enquanto olhava para a foto da bisavó, a primeira de muitos parentes que imigraram para a Austrália. “Mas não fizemos nada de errado.”

As políticas de viés racial continuaram em vigor até 1973. Agora há cerca de 1,2 milhão de pessoas na Austrália com ascendência chinesa.

Este ano marca o 200.º aniversário da imigração chinesa para a Austrália, que ocorre num momento em que o país se vê novamente em conflito diante de seu relacionamento com o maior e mais poderoso vizinho da região. Muitos sino-australianos estão mergulhando nos arquivos de suas famílias para compartilhar sua história.

Até em vilarejos e cidades menores como Bendigo, onde o Museu do Dragão Dourado captou dinheiro para substituir seu histórico dragão cerimonial da dinastia Qing, os sino-australianos estão procurando maneiras de manter viva sua cultura. Eles querem definir sua cultura longe dos debates a respeito da influência do Partido Comunista chinês na Austrália, e garantir que o público compreenda que nem todos de aparência chinesa na Austrália são recém chegados.

“Acredito que as pessoas, e em especial os brancos, nos colocam todos na mesma categoria de chineses, como se todos fossem iguais", disse Teik Hock Lim, 67 anos, descendente de chineses que se aposentou como funcionário do serviço social e cresceu na Malásia sob domínio britânico. “É como se todos os brancos fossem chamados pelo mesmo nome.”

Nick Shying, 22 anos, é um dos muitos sino-australianos cujas raízes remontam aos primeiros colonos chineses. Ele disse que as pessoas costumam rir quando ele fala em sua ascendência chinesa. Os australianos ainda usam a aparência como referência para suposições étnicas, mas ele diz que sua pele clara e olhos azuis fazem dele “um exemplo dos problemas dessa abordagem".

Muitos líderes comunitários dizem que as identidades são demasiadamente simplificadas conforme o público se concentra nos novos imigrantes.

Parte do motivo pode ser o fato de a Austrália ainda se considerar um país branco, disse Kate Bagnall, historiadora da Universidade de Wollongong. “É uma imagem muito poderosa e difícil de transformar.”

E com o governo australiano se esquivando de alegações de interferência política por parte do governo chinês, alguns temem que essa ignorância da história possa motivar uma reação antichinesa.

“Alguns de nós, membros da comunidade, sentem o possível retorno da Política da Austrália Branca", disse Daphne.

Mark Wang, vice-presidente do Museu de História Australiana Chinesa, em Melbourne, disse: “Não queremos ser distorcidos por uma subcorrente política. Nosso elo é com a história australiana, e não com a história chinesa".

O filho de Man-Yee, Ken, 31 anos, montou recentemente uma exposição usando histórias de sino-australianos com nomes que foram anglicizados pelas autoridades de imigração.

Numa tarde recente, Man-Yee bebia chá enquanto os netos brincavam nos arredores.

“Nenhum deles é verdadeiramente chinês", disse ela. “Mas é assim que o futuro será.”

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