Lisa Tomasetti NYT
Lisa Tomasetti NYT

A aposta arriscada da produtora que lançou quatro musicais em três continentes

A Global Creatures está divulgando produções de grande orçamento, como “King Kong” na Broadway

Michael Paulson, The New York Times

20 Julho 2018 | 15h30

No começo, antes do símio gigantesco e das dançarinas de cancã, antes do desajustado e seus devaneios e do bailarino desafiador, antes mesmo dos dinossauros e dos dragões, existiam os trailers.

A produção de trailers fez de Gerry Ryan um dos homens mais ricos da Austrália. Ele construiu um império graças ao ‘caravaning’ - como os australianos chamam esta maneira popular de viajar - e depois investiu em ciclismo, cavalos puro-sangue, vinhos, futebol, basquete, tecnologia e arte.

Agora, ele está apostando no musical de teatro. A Global Creatures, uma companhia sediada em Sydney que ele fundou e dirige, está produzindo quatro musicais - em três continentes, ao mesmo tempo.

“Moulin Rouge!” começou as pré-estreias em Boston este mês. “King Kong” estreará na Broadway em outubro. “Strictly Ballroom” estreou em abril no West End de Londres e “Muriel’s Wedding” fará a sua estreia em Sydney no próximo verão.

Os quatro títulos são financiados, em parte, com o dinheiro do faturamento da primeira incursão da companhia na área do entretenimento, o espetáculo “Walking With Dinosaurs”, que apresenta 18 bichos robotizados em tamanho natural, e ganhou 455 milhões de dólares em turnês ao longo de dez anos. A montagem dos quatro musicais deverá custar 75 milhões de dólares.

“Estes projetos ambiciosos são de alto nível, e de grande orçamento”, afirmou Carmen Pavlovic, a diretora executiva da Global Creatures e diretora geral dos espetáculos. ”Se começo a pensar nisso, fico nervosa. Mas eu me proíbo de começar a pensar”.

“Muriel’s Wedding” teve críticas positivas - e lotou - na estreia na Sydney Theater Company, sem fins lucrativos no inverno passado. Mas “Strictly Ballroom”, mesmo depois de se apresentar em Sydney, Leeds, na Inglaterra, e Toronto, foi arrasado pela crítica em Londres.

“Moulin Rouge!”, que espera estrear na Broadway na próxima temporada, é o primeiro espetáculo das Global Creatures a fazer a sua estreia fora da Austrália. “Moulin Rouge!” e “King Kong” são produções maiores - “Kong” exige 13 pessoas para operar o macaco. “Kong” foi reescrito por Jack Thorne, que ganhou um Tony por “Harry Potter and the Cursed Child”.

Os realizadores teatrais australianos, que durante tanto tempo aturaram um cenário comercial dominado pelos musicais importados da Broadway e do West End, estão encantados com a rara iniciativa da Global Creatures, de cultivar e exportar espetáculos em larga escala. Os governos estatais australianos apoiaram os shows com ajuda monetária e de marketing.

“Todo mundo olha para eles e diz: ‘Graças a Deus’ ”, disse Simon Phillips, um famoso diretor australiano que dirige o desenvolvimento de “Muriel’s Wedding”. “Eles têm a galinha dos ovos de ouro com os animatronics, e não precisam continuamente do teatro, mas acreditam nele”.

Ryan, 67, financiou e coproduziu o espetáculo de arena original “Walking With the Dinosaurs, que começou em 2007, baseado em uma série de sucesso da televisão da BBC. Mas ele estava atarefado dirigindo sua companhia de trailers, a Jayco Australia, por isso contratou Carmen Pavlovic, para supervisionar os animatronics.

Carmen, 49, australiana, trabalhou em produções teatrais em Sydney e em Londres, primeiramente no Andrew Lloyd Webber’s Really Useful Group, e depois no Stage Entertainment. Ela montou “Cats” na Rússia, “O Rei Leão” na França, e “Dirty Dancing” na Alemanha. E também conhecia “Walking With Dinosaurs” porque é casada com o cenógrafo do espetáculo, Peter England.

Carmen concordou em dirigir a companhia com uma condição: além do negócio dos animatronics, ela quer produzir teatro tradicional.

“Eu não queria criar apenas espetáculos de animais estranhos”, falou. “E também não queria apenas imitar a Broadway e o West End, que é o que fazem todos os outros produtores”.

No entanto, considerando a experiência da companhia com animais robóticos, ela começou com “King Kong”.

Thorne, o roteirista, reformulou a história para as sensibilidades contemporâneas. O australiano Eddie Perfect compôs canções que variam da música para as danças de salão ao suingue e ao rhythm and blues.

Christiani Pitts, que faz o papel de Ann Darrow, é afro-americana, e o elenco é variado, o que é importante por se considerar que na história há toda uma problemática subjacente do ponto de vista racial.

Em 2009, Carmen Pavlovic e Baz Luhrmann, um visionário diretor australiano, negociaram um acordo para a Global Creatures que previa a adaptação de “Strictly Ballroom”, um filme de 1992 sobre um bailarino que vive competindo que se recusa a seguir as normas do campeonato, e “Moulin Rouge!”, uma obra de 2001 sobre um escritor que se apaixona perdidamente por uma cortesã.

Luhrmann disse que ficou impressionado pelo fato de Ryan “ter a energia de acompanhar a feitura de um espetáculo até tudo ficar perfeito”, e valorizou o “intenso entusiasmo” de Carmen.

Ryan contribuiu pouco em termos artísticos para os quatro espetáculos, mas é um admirador do elenco e destes artistas criativos.

“Eu sou um investidor a longo prazo”, ele disse. “Sei que isto é arriscado, mas quanto maior o retorno, maior o risco”.

Mais conteúdo sobre:
teatro

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.