Tristan Spinski para The New York Times
Tristan Spinski para The New York Times

A às vezes incômoda trilha sonora do dia a dia

Sons de celulares, tablets e mesmo o canto dos pássaros podem incomodar ouvidos mais sensíveis

Tom Brady, The New York Times

01 Março 2018 | 11h58

Teddy Wayne lamenta que o mundo tenha se tornado repleto de uma cacofonia de sons detestáveis, muitos dos quais são produzidos por celulares e tablets.

"Além de um cardápio de tudo o que se pode imaginar em matéria de tons para celulares, há o chiado padrão e o 'ding' das mensagens de texto, o clique da digitação, alarmes que tocam como relógios analógicos ou o piar dos pássaros, o clique da objetiva da câmera e os barulhos de uma quantidade de outras funções e aplicativos", escreveu Wayne para o jornal The New York Times. "E ainda os ruídos dos computadores: o tinido dos arquivos 'jogados' na lixeira ou na lata de reciclagem (e estas sendo 'esvaziadas'), avisos de e-mails, alarmes de startups e toques de encerramento".

Os sons dos jogos de celulares são, talvez, os que mais mudaram ao longo da década, segundo Jean-Luc Cohen-Sinclair, professor assistente do Berklee College of Music em Boston, que trabalhou no desenvolvimento de sons para jogos. Frequentemente, eles têm um acúmulo de energia gerada pela percussão, "como alguém que estala os dedos", disse. "Os sons são sempre altos nos jogos".

Os designers cuidam mais da frequência de médio alcance, que funciona melhor com fones de ouvidos e é mais alta - o que significa que você também ouvirá o som caso esteja perto de alguém com fones de ouvido. O volume alto de fones de ouvido provoca perda de audição, e a Organização Mundial da Saúde calcula que mais de um bilhão de adolescentes e jovens adultos correm perigo de ficar surdos. E o que fazem as pessoas quando começam a perder a audição? Aumentam o volume, causando um dano ainda maior.

No caso dos diplomatas americanos em Cuba, que, em agosto do ano passado, começaram a sofrer de sintomas semelhantes aos de uma concussão, os problemas foram atribuídos originalmente a ataques sônicos. O Federal Bureau of Investigation (FBI) descartou essa teoria em janeiro, mas cientistas ainda tentam descobrir o que aconteceu.

Segundo Douglas H. Smith, diretor do Center for Brain Injury and Repair da Universidade da Pensilvânia, os sintomas dos pacientes eram reais. "Parecia uma patologia de concussão", afirmou. "Velocidade de processamento e incapacidade de lembrar são sintomas clássicos que vemos nas concussões".

Smith disse que estava tentando solucionar o mistério. "Trata-se de uma concussão sem um trauma direto na cabeça".

O mistério do zunido ouvido em Windsor - que soa como um caminhão parado ou um trovão distante - atormenta a cidade canadense próxima de Detroit há anos, prejudicando a saúde e a qualidade de vida das pessoas, queixam-se numerosos moradores.

Alguns comparam tal som a motores diesel em funcionamento perto de sua casa ou à pulsação de um alto-falante subwoofer. Além disso, há relatos de janelas batendo e assustando os bichos da casa.

"Ouviram falar de pessoas que se mudaram para lugares distantes a fim de afastar-se de certos sons, ruídos e coisas parecidas?", escreveu Sabrina Wiese em um grupo do Facebook que procura descobrir a fonte do ruído. "No ano passado eu quis fazer isso muitas vezes, porque a coisa ficou feia", continuou. "Imagine precisar fugir de tudo o que você conhece e ama para não ouvir mais zumbidos na cabeça, horas a fio".

Sabrina talvez queira conhecer as ilhas remotas ao longo da costa de Maine. Hoje em dia, apenas 15 delas são habitadas o ano todo, em comparação a cerca de 300 há 100 anos.

Chris Hodgkins, 30, é um pescador de lagostas que mora na aldeia de Frenchboro que toma toda uma ilha (cuja população é de 61 pessoas), cerca de 10 quilômetros ao sul da pequena cidade turística de Bar Harbor. Ele passa o inverno consertando armadilhas, pintando boias e limpando cordas.

Para Hodgkins, o lado negativo da vida na ilha é o fato de que, ao que tudo indica, poucas mulheres se mostram dispostas a levar o mesmo tipo de vida. Mas ele adora a quietude.

"Já ouviu o silêncio absoluto?", perguntou.

 

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